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20/06/2016

Muralhas de Lisboa


Chegado por e-mail, em c.c.:


«Sr. Arq. João Luís Carrilho da Graça

Prezado Senhor,

Passei hoje pela obras no Campo das Cebolas e me pareceu que os vestígios das muralhas de Lisboa e outras construções que foram postas a descoberto não são nada insignificantes. Tudo será destruído para dar lugar a um estacionamento de carros particulares, que não têm nada a fazer naquele lugar desta cidade devassada pelo trânsito e turismo.

É claro que a responsabilidade é da Câmara, que infelizmente é o resultado de insondáveis jogos de interesses. Diante disso qual é o compromisso da cultura?

Não é fácil responder a essa pergunta. Mas como os arquitectos costumam reivindicar essa condição, sobretudo neste país de “patos-bravos”, gostaria de conhecer a sua opinião a esse respeito.

Melhores cumprimentos

Pedro de Souza»

23/10/2015

CDS preocupado com preservação de achados arqueológicos no Campo das Cebolas


In Público Online (23.10.2015)
Por Inês Boaventura

«A Direcção-Geral do Património Cultural confirma que neste local, na frente ribeirinha de Lisboa, foram identificados "inúmeros vestígios arqueológicos".

O CDS quer saber se “estão a ser tomadas todas as necessárias e devidas medidas no sentido de preservar as memórias históricas e o valor simbólico dos elementos urbanos, arquitectónicos e monumentais” que tenham já sido encontrados ou que venham a sê-lo no decurso das obras que a Câmara de Lisboa está a realizar no Campo das Cebolas. Segundo o partido, no local foi descoberto “um muro com características históricas e valor patrimonial tais que determinam o seu estudo e preservação”.

Ao presidente da câmara foi enviado um pedido de informação escrita sobre este assunto. Nele o vereador centrista, João Gonçalves Pereira, diz ter sido informado da descoberta do referido muro, “na zona da antiga Ribeira Velha ou do antigo Cais de Ver-o-Peso”, e acrescenta que “é expectável que venham a ser encontrados vestígios arqueológicos com grande importância histórica” no decurso da execução do projecto do Campo das Cebolas/Doca da Marinha.

Face a isso, o autarca pergunta se “estão a ser tomadas todas as necessárias e devidas medidas” para preservar os vestígios arqueológicos. João Gonçalves Pereira quer também saber se a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) foi “chamada a intervir no atinente ao citado muro” e, em caso afirmativo, qual foi o seu parecer.

O PÚBLICO dirigiu à DGPC perguntas sobre este assunto, nomeadamente sobre que estruturas foram encontradas até ao momento no Campo das Cebolas e qual a sua importância histórica e estado de preservação. Em resposta, a responsável pela comunicação dessa entidade informou que foram identificados no local “inúmeros vestígios arqueológicos, a muitos dos quais está a ser aplicado o princípio da conservação pelo registo científico, previsto na Lei de Bases do Património Cultural”. Através desses vestígios, acrescenta-se, “tem sido possível contribuir para um melhor conhecimento de evolução da cidade de Lisboa nesta área, entre os finais do século XVII e os dias de hoje”.

Além disso, a DGPC lembra que “está prevista a integração no parque de estacionamento subterrâneo [que está a ser construído pela Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (Emel)] da estrutura portuária setecentista do Cais de Santarém ou Cais da Ribeira Velha, documentada na cartografia e fontes históricas”.

Em respostas escritas diz-se ainda que a DGPC, “no âmbito das suas competências, encontra-se a acompanhar desde meados de 2014 o Projecto Ribeira das Portas do Mar, Campo das Cebolas e Doca da Marinha”, acrescentando-se que “a escavação arqueológica em curso, e aprovada por esta direcção-geral, é da responsabilidade da CML/EMEL, enquanto promotores da intervenção”.

A entidade responsável pela gestão do património cultural faz ainda saber que “no momento encontra-se terminada a fase de diagnóstico arqueológico, visando a caracterização do local no que diz respeito a eventuais vestígios soterrados”. “Assim, esta direcção-geral aguarda o envio do relatório preliminar dos trabalhos arqueológicos realizados, através do qual terá conhecimento dos vestígios identificados até ao momento, de modo a poder avaliar os eventuais impactes que a implementação do projecto em referência possa vir a ter sobre o mesmo”, conclui-se.

No seu plano de actividades e orçamento para 2016, a Emel detalha que a obra para a construção de um parque de estacionamento subterrâneo no Campo das Cebolas “abrange a requalificação do Largo do Campo das Cebolas que se estende desde da Rua do Cais de Santarém até à Rua dos Arameiros, e desde a Rua da Alfândega até à Av. Infante D. Henrique”. Está em causa a concretização de um projecto do arquitecto Carrilho da Graça.

O PÚBLICO aguarda resposta a um pedido de esclarecimentos enviado à Câmara de Lisboa»

23/04/2014

No subsolo do Banco de Portugal há uma muralha com mais de sete séculos para conhecer

O Núcleo de Interpretação da Muralha de D. Dinis abre esta quarta-feira ao público, no Largo de São Julião, em Lisboa. Já o Museu do Dinheiro só deverá ser inaugurado em 2015.
Por Inês Boaventura, Público de 23 Abril 2014

Este troço da muralha foi descoberto no decurso das obras de reforço estrutural dos edifícios do Banco de Portugal
Foto de José Maria Ferreira

O único troço colocado a descoberto da Muralha de D. Dinis, mandada construir há mais de sete séculos para proteger a população de Lisboa dos ataques vindos do Tejo, pode ser visitado a partir desta quarta-feira. Para ver de perto os 31 metros deste monumento nacional que foram musealizados, há que descer ao subsolo da sede do Banco de Portugal (BdP), no Largo de São Julião, em Lisboa.
Este troço da muralha foi encontrado em 2010, durante as obras de reabilitação do quarteirão que se estende entre aquele largo e a Rua do Ouro e que integra um conjunto de oito edifícios e a antiga Igreja de São Julião, todos propriedade do BdP. O objectivo inicial da intervenção era fazer o reforço estrutural do edificado, mas o seu âmbito acabou por ser alargado com a decisão de ali se instalar o Museu do Dinheiro e com as descobertas arqueológicas entretanto realizadas.
Para chegar ao Núcleo de Interpretação da Muralha de D. Dinis é preciso descer um lance de escadas e entrar numa zona à qual o projecto inicial de reabilitação não previa que os visitantes pudessem aceder. O director do Departamento de Serviços de Apoio do BdP, Eugénio Gaspar, sublinha que este foi um processo feito de “vários compromissos”, que permitiram “tornar compatível” a função actual do espaço com o acesso público a um monumento nacional.
Numa primeira área é possível ficar a conhecer, enquanto se ouvem músicas escritas e compostas por D. Dinis, o contexto em que foi mandada construir, em 1294, a muralha e alguns dos principais factos que marcaram o reinado do monarca. Depois disso, os visitantes são convidados a percorrer um corredor, com uma largura reduzida, no fim do qual surge finalmente o troço descoberto daquela construção.
Mas antes de lá chegar há 25 peças, de várias épocas, para conhecer, incluindo botões de punho do séc. XIX, estacas de madeira do séc. XVIII, um azulejo do séc. XVI, vários objectos do quotidiano da época islâmica e artefactos romanos ligados ao mar. O arqueólogo Artur Rocha sublinha que esta é apenas “uma pequena amostra” de tudo o que foi encontrado, e que “não chega a ser um milésimo do total”.
À escolha desta amostra, explicou o arqueólogo, presidiu a ideia de “dar uma visão diacrónica, da época romana até à actualidade”, mas também a de revelar a “ligação do rio à cidade”.
Quanto à muralha, Artur Rocha sublinha que esta foi “a primeira vez em que apareceu num ambiente de escavação arqueológica controlada cientificamente”. Nos anos 30, recorda, houve notícias da descoberta de um outro troço, que não foi conservado nem alvo de um registo fotográfico.
Nos trabalhos arqueológicos que se iniciaram no princípio de 2010 e se prolongaram por 11 meses, foi também encontrada “uma grande quantidade de materiais osteológicos, restos humanos”, acrescentou o arqueólogo, explicando que esses vestígios serão de “pelo menos 580 indivíduos”, enterrados no local “na primeira metade do séc. XIX”.  
O acesso ao Núcleo de Interpretação da Muralha de D. Dinis é gratuito e pode ser feito de terça a sexta-feira, entre as 10 e as 18h. A responsável pelo espaço, Sara Barriga, anunciou que entre 17 de Maio e 4 de Setembro, período durante o qual haverá em simultâneo uma exposição de arte contemporânea com peças da colecção do Banco Europeu de Investimento, o local estará também aberto ao sábado.   
Segundo Eugénio Gaspar, o BdP realizou um investimento de 450 mil euros para tornar a muralha visitável. O designer Francisco Providência, responsável pela museografia, não tem dúvidas de que a inauguração deste espaço trará “novos argumentos de visita à Baixa”.  
Museu do Dinheiro só abre em 2015
A sua inauguração chegou a ser anunciada para 2013, mas afinal o Museu do Dinheiro, que vai ficar instalado no espaço da antiga Igreja de São Julião, só deverá abrir as portas “no terceiro trimestre de 2015”. A nova data foi avançada pelo director do Departamento de Serviços de Apoio do Banco de Portugal, que explicou que esta “reprogramação” se deve ao facto de a instituição ter decidido “dar prioridade” ao Núcleo de Interpretação da Muralha de D. Dinis.
Ainda assim, “os dois primeiros núcleos” do futuro museu estão já acessíveis ao público, apresentando cada um deles uma figura que representa Hermes, o deus grego do comércio. Numa dessas figuras é possível assistir a uma animação que dá a conhecer o traçado urbanístico da zona da Baixa antes e depois do terramoto e noutra os visitantes podem, usando os seus bilhetes de entrada no espaço, simular acções de troca com Hermes e ficar a conhecer as várias formas que o dinheiro assumiu ao longo do tempo.   


21/03/2013

Entre ânforas e cerâmicas escondia-se parte de uma embarcação romana



Ânforas e peças de cerâmica descobertas no local

In Público (21/3/2013)
Por Inês Boaventura

«É um achado de extrema raridade aquele que os arqueólogos fizeram na Praça D. Luís I, em Lisboa: a madeira com cerca de 8,5 metros de comprimento que tinha sido encontrada entre meia centena de ânforas e algumas peças de cerâmica é parte de uma embarcação romana que terá navegado no Atlântico.

Esta peça de madeira foi descoberta durante a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, junto à Avenida 24 de Julho, no interior de uma área que os arqueólogos já tinham identificado como tendo sido um fundeadouro (um local de ancoragem de embarcações) pelo menos entre os séculos I a.C. e V d.C. Desde cedo, os técnicos perceberam que se tratava de uma peça náutica, mas só investigações subsequentes permitiram determinar que o vestígio em causa era parte de um navio e não de uma estrutura portuária, hipótese que tinha sido igualmente equacionada.

“Estamos na presença de uma peça inequivocamente naval, de uma embarcação romana”, afirmou ao PÚBLICO o coordenador dos trabalhos, que estão a ser desenvolvidos pela empresa ERA-Arqueologia em colaboração com o Centro de História de Além-Mar, da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores. Alexandre Sarrazola explicou, durante uma visita às escavações, que esta seria “uma peça para fazer a ligação das tábuas do forro e destas à quilha”, “num tipo de construção shell first [em que o barco começa a ser construído pelo casco]”. Quanto à dimensão do navio, aquilo que se pode dizer por enquanto é que, a julgar pelo comprimento da madeira descoberta, teria “dimensões consideráveis”.

“Este não é um achado isolado. Foi registado num contexto, de fundeadouro, que do ponto de vista histórico é exclusivamente romano”, sublinha o arqueólogo. Esse facto contribui aliás para tornar esta descoberta única, já que num outro caso registado em 2002 no estuário do rio Arade, no Algarve, foi também encontrado um pedaço de uma embarcação romana (com cerca de 35 centímetros de comprimento) mas de forma isolada, fora de qualquer contexto arqueológico.

De 2002 a 2003 foram ainda descobertas, desta vez no rio Lima, em Viana do Castelo, duas pirogas monóxilas (esculpidas num único tronco). Os resultados da datação feita a amostras dessas embarcações permitiram concluir que seriam do século II a.C.

Cristóvão Fonseca, investigador do Centro de História de Além-Mar, explica que o rio Arade e o rio Lima são os únicos dois casos documentados em Portugal de descoberta de embarcações, ou parte delas, que se supõe serem da época romana. O arqueólogo destaca a importância do achado agora feito na Praça D. Luís I: “É a primeira madeira de navio encontrada em contexto que podemos dizer que é romana. No Mediterrâneo há barcos inteiros, mas no Atlântico este é um dado muito importante. Não se conhece mais nada com estas características na faixa atlântica.”

“É um achado de extrema raridade, para não dizer único”, afirma também Alexandre Sarrazola, acrescentando que estamos na presença de “um elemento fundamental no contributo para a narrativa da história de Lisboa no que concerne à sua vocação marítima milenar”. “É um achado de grande importância”, atesta a directora do Departamento dos Bens Culturais da Direcção-Geral do Património Cultural, Catarina Coelho, destacando que se trata de algo “único no nosso território”.

Os trabalhos arqueológicos na Praça D. Luís I, que se prolongaram por quase dois anos e estão agora a terminar, permitiram revelar, além do fundeadouro romano e dos vestígios nele encontrados, uma grade de maré do século XVII (para reparação naval ou lançamento de embarcações) e restos de outras estruturas, como uma escadaria e um paredão do Forte de S. Paulo (século XVII), parte do cais da Casa da Moeda (século XVIII) e fornalhas da Fundição do Arsenal Real (século XIX).


A peça de madeira identificada como fazendo parte de uma embarcação romana tem 8,5m de comprimento, mas foi agora seccionada em cinco troços — só um será preservado

Troço preservado

Decisão da DGPC

Os técnicos da empresa ERA-Arqueologia tinham, segundo o arqueólogo Alexandre Sarrazola, recomendado que a madeira de 8,5 metros de comprimento encontrada na Praça D. Luís I fosse integralmente conservada, dada a sua “inequívoca importância patrimonial e científica”. Mas a decisão da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), ontem transmitida ao PÚBLICO, foi outra: só um dos cinco troços em que foi seccionada a peça que pertenceu a uma embarcação romana será preservado.

A directora do Departamento dos Bens Culturais da DGPC explicou que essa decisão foi tomada atendendo ao “muito mau estado de conservação” da madeira, que esteve submersa e depois envolta em lama, e que foi atacada pelo teredo, um molusco subaquático. “Isto não implica que todo o registo da peça não esteja já feito”, sublinha Catarina Coelho, acrescentando que foram recolhidas várias amostras da madeira, por exemplo para a realização de análises que permitam fazer a sua datação.

“A nossa expectativa é conseguirmos tratar dela o melhor possível para que no futuro tenha condições para ser exposta, com toda a informação produzida no âmbito da sua recolha”, diz a dirigente da DGPC, adiantando que até lá a peça ficará armazenada nas instalações da Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, num tanque já preparado para o efeito.

Também o coordenador dos trabalhos arqueológicos na Praça D. Luís I defende a musealização deste achado. “Consideramos que esta peça, acompanhada da sua explicação, tem um interesse museográfico inegável”, diz Alexandre Sarrazola.»

25/02/2013

Fundeador romano descoberto em escavações arqueológicas no Cais do Sodré


In Publico Online (24/2/2013)
Por Lusa


«Zona junto ao Mercado da Ribeira, onde será construído um parque de estacionamento, está a ser escavada há dois anos e já tinham sido descobertos vestígios de estruturas de séculos posteriores.

Escavações arqueológicas na Praça D. Luís, no Cais do Sodré, Lisboa, revelaram um fundeador romano com mais de 2000 anos. É um espaço junto à costa, onde os navios ancoravam temporariamente para descargas e trânsito de passageiros e reparações.

É um achado raro e extraordinário, que reflecte de forma muito rica a história da cidade, salientou à Lusa o arqueólogo Alexandre Sarrazola, que datou o fundeador entre o século I antes de Cristo e o século V.

[...]Dada a importância dos achados arqueológicos encontrados, Alexandre Sarrazola alertou para a necessidade de “uma articulação entre a política de património e a de ordenamento de território, nomeadamente quando são revistos os Planos Directores Municipais ou quando se fazem planos de pormenor”. Nesses casos, adiantou, “é fundamental ter-se em conta, particularmente na zona ribeirinha de Lisboa, a probabilidade da reincidência de achados desta natureza”.

Para Sarrazola, “este tipo de intervenções” arqueológicas e os estudos que delas resultam só fazem sentido “se forem amplamente divulgados e se servirem para contar uma história para todos, de um passado que é de todos, e se sedimentarem aquilo que é uma memória colectiva”. “Só faz sentido fazer arqueologia quando essa arqueologia entronca na memória colectiva”, rematou.»

19/03/2010

Uma viagem por três Lisboas e muitos séculos faz-se em meia dúzia de passos


In Público (19/3/2010)
Por Alexandra Prado Coelho

«O arquitecto Carrilho da Graça criou casas em tamanho real sobre as escavações para mostrar como era a vida no bairro islâmico nos séculos XI e XII

Aqui - e a arqueóloga Ana Gomes aponta para a nossa esquerda - era a zona da cozinha, onde foi encontrada uma área de fogo e cerâmica fracturada. Do outro lado, ficavam "as latrinas, uns buracos no chão ligados a um sistema de esgotos". Numa divisão mais à frente foram encontradas duas rocas. O que seria? Talvez um harém, brinca Ana Gomes.

Estamos num pátio interior de uma casa islâmica. Mas estamos também entre as muralhas do Castelo de São Jorge. O núcleo arqueológico do castelo, que começou a ser escavado em 1996 quando se pensou fazer ali um parque de estacionamento, abriu ontem com pompa e circunstância - uma performance da Companhia de Ópera do Castelo, discurso do presidente da câmara, António Costa a falar da Lisboa "encruzilhada de culturas", outro discurso do arquitecto João Luís Carrilho da Graça, responsável pelo projecto, embaixadores de países islâmicos, chá e frutos secos, como se comeriam na época em que estas casas eram habitadas.

Este não é um núcleo arqueológico comum. "Em Lisboa não há nada semelhante", garante Ana Gomes, que, juntamente com Alexandra Gaspar, é a responsável pelas escavações. "Estamos num espaço urbano. Não seria crível que fôssemos encontrar casas com 200 metros de área, ainda com pinturas e pavimentos."

Quando os trabalhos começaram sabiam que era provável aparecerem ruínas do Palácio dos Condes de Santiago (sécs. XV-XVIII, que ruiu com o terramoto de 1755) e que se sabia ter sido construído sobre o Paço dos Bispos (sécs. XII a XV). "Tudo isto estava metido na terra até aqui" - Ana levanta o braço apontando bem acima das nossas cabeças. De facto, lá estava o palácio, mas rapidamente começaram a aparecer vestígios, primeiro de um muro da época islâmica e depois das ruínas de duas grandes casas. Tão bem conservadas que ainda mantêm estuques pintados e decorados com motivos geométricos e com o chamado "cordão da felicidade".

Mas escavaram mais (noutro ponto) e o que surgiu foram vestígios de habitações da Idade do Ferro (do século VII a.C. ao século III a.C.): o que se pensa ser uma cozinha, com uma área de fogo e restos de panelas, potes, taças e ânforas (que podem ser vistos no núcleo museológico, situado também dentro das muralhas do castelo). Existem, portanto, vestígios de três épocas distintas.

Quando conheceu as escavações, Carrilho da Graça lembrou-se das ruínas romanas de Volubilis, em Marrocos. "Lembro-me de estar lá e pensar que seria interessante termos ali a materialização de uma daquelas casas. Achei mais interessante explorar a espacialidade do que fazer o que estava previsto, que era construir um alpendre para proteger as ruínas."[...]»

18/03/2010

Achado arqueológico raro no Castelo


In Diário de Notícias (19/3/2010)
por ISALTINA PADRÃO

«É a única capital europeia com um núcleo arqueológico com vestígios do séc. VII a.C. até ao séc. VIII. Abre hoje

Em 2600 metros quadrados, localizados no Castelo de São Jorge, em Lisboa, "coabitam" povos desde o século VII a.C. até aos nossos dias. Trata-se do Núcleo Arqueológico do Castelo que hoje abre as suas portas ao público e no qual se encontram vestígios desde a Idade do Ferro até ao século XVIII, sem esquecer que o projecto arquitectónico bem como a sinalética têm como autores dois portugueses do século XXI.

Estamos perante um núcleo civilizacional contínuo raro de encontrar. Aliás, segundo as arqueólogas que têm trabalhado nas escavações, este é um projecto ímpar, de que muito se orgulham. "Hoje, Lisboa é a única capital europeia que, num castelo com uma freguesia intramuros, tem um núcleo arqueológico visitável onde se vê um pedaço histórico de várias ocupações desde o séc. VII a.C. até ao séc. VIII", disse ao DN a historiadora Susana Serra, corroborada por Ana Gomes e Alexandra Gaspar, arqueólogas da Direcção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo.

"Com estas dimensões e em tão bom estado de conservação é raro encontrar num mesmo espaço vestígios que testemunham três períodos significativos da história do Castelo e de Lisboa", frisa Ana Gomes. Esta responsável refere-se às estruturas habitacionais da Idade do Ferro (séc. VII a.C. - III a.C.); a um bairro islâmico de meados do séc. XI (época da construção do Castelejo); e ainda a vestígios do Palácio dos Condes de Santiago.

Os primeiros vestígios foram encontrados em 1996, quando se pensava transformar a praça nova do Castelo num parque. "No âmbito do projecto de requalificação do Bairro do Castelo havia a intenção de fazer aqui um parque de estacionamento. Quando as arqueólogas começaram as escavações perceberam que havia aqui vestígios relevantes que mereciam uma intervenção profunda", explicou a gestora do Castelo, Teresa Oliveira.

Dada a relevância dos achados, em 2006 iniciou-se um processo de musealização com a candidatura ao Plano Operacional da Cultura (POC). Em Dezembro de 2008 foi instalado o núcleo museológico na zona do antigo Paço Real "com o espólio encontrado intramuros, com incidência na área arqueológica", disse Teresa Oliveira.

E foi nesta área que as arqueólogas começaram por encontrar vestígios da Idade do Ferro. Neste núcleo havia vestígios de muros e de um compartimento que corresponderá à cozinha, onde havia potes, taças, panelas e ânforas (peças que serão expostas no núcleo museológico). Outro núcleo visitável é o islâmico, onde se encontraram ruas e casas (correspondentes à típica casa mediterrânea). "Têm um pátio central, despensa, cozinha e compartimentos que se organizam à volta do pátio: cozinha, despensa, salões com alcovas (quartos)", disse Ana Gomes, adiantando que as casas têm cerca de 200 m2 e estão bem preservadas.

No terceiro núcleo, o do palácio, que pertenceu aos bispos de Lisboa até ao séc. XV e depois foi arrendado aos condes de Santiago, "foram achados compartimentos correspondentes ao rés-do-chão, onde estavam cozinha, armazéns, despensas, cavalariças e jardim", frisou Alexandra Gaspar adiantando que o palácio ruiu com o terramoto de 1755. As peças intactas achadas estão no museu. Tudo pode ser visto a partir de hoje, dia da inauguração do núcleo, onde ontem se faziam os últimos retoques.»

23/04/2009

Achados arqueológicos descobertos no Terreiro do Paço podem vir a ser divulgados num centro interpretativo

In Público (23/4/2009)

«A criação de um centro interpretativo para os achados arqueológicos descobertos durante as obras do Terreiro do Paço é uma das hipóteses em estudo para divulgar aquele património, disse o vereador do Urbanismo na Câmara de Lisboa, Manuel Salgado.
A hipótese foi avançada numa reunião entre o vereador, o presidente do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar), o vice-presidente do instituto para a área da arqueologia e responsáveis da sociedade Frente Tejo, da EPAL e da Simtejo, entidades envolvidas nas obras que decorrem no Terreiro do Paço.
Na reunião foi decidido o levantamento da interrupção da obra devido à descoberta de achados arqueológicos, nomeadamente de uma muralha junto ao Cais do Corpo Santo. "A situação está controlada e nenhum atropelo foi cometido para não comprometer o calendário da obra", garantiu Manuel Salgado, referindo o "valor importante" dos achados.
"Não houve destruição de património. Assim que foram detectados achados foi dado conhecimento ao Igespar, que accionou as medidas preventivas", afirmou o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, durante a reunião da Assembleia Municipal que se realizou anteontem.
Diferente é a versão do responsável pela arqueologia náutica e subaquática do Igespar, Francisco Alves, que revelou ao PÚBLICO, em declarações anteriores, que houve um avanço das máquinas sobre os vestígios, previamente registados por desenho e fotografia, "sem autorização da tutela". Também o presidente do instituto, Elísio Summavielle, admitiu uma "precipitação" do empreiteiro.
A Assembleia Municipal aprovou uma moção do PSD condenando "veementemente" as "situações ocorridas" e exigindo do presidente da câmara "garantias sólidas" de que é capaz de "defender e salvaguardar o património histórico e arqueológico".
Numa recomendação apresentada pelo PSD, os deputados exigiram que o contrato local de segurança, que está a ser negociado com o Ministério da Administração Interna e que se prevê que abranja apenas a zona da primeira divisão da PSP, seja "aplicável a toda a cidade de Lisboa". Também António Costa revelou defender esse alargamento, frisando que "não há uma negociação fechada".
Também por iniciativa do PSD, a Assembleia aprovou uma moção repudiando "qualquer tentativa" da autarquia de propor alterações ao PDM para "acomodar interesses imobiliários do Governo".
Já ontem, na reunião do executivo camarário, Marcos Perestrello, vice-presidente da câmara, renunciou ao mandato autárquico na capital, considerando não ter condições para o exercer em simultâneo com a pré-campanha eleitoral em Oeiras, onde será cabeça de lista. PÚBLICO/Lusa»

E começou a jogatina partidária.