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29/08/2018

Rua Barata Salgueiro, 21 - Pedido de esclarecimentos sobre Aviso de Demolição


Exmo. Senhor Vereador
Arq. Manuel Salgado


CC. PCML, AML, JF, DGPC e media

Constatando o aviso prévio colocado recentemente no edifício da Rua Barata Salgueiro, nº 21, referente ao processo 547/EDI/2017, no qual se dá conta da aprovação da demolição do mesmo (ver fotos 1 a 3 em anexo), somos a solicitar esclarecimentos a V. Exa. sobre se a demolição anunciada é total ou parcial.

Lembramos que em Dezembro de 2009 a CML chumbou, e bem, o pedido de alterações e ampliação com demolição de interiores então apresentado, processo nº 261/EDI/2008 (fotos 4 e 5), sobre este imóvel então propriedade do grupo BES, por sinal um projecto que mantinha a estética e linguagem do pré-existente, o que ainda levanta mais estranheza pela demolição agora anunciada.

E relembramos a importância de se salvaguardar a fachada principal deste imóvel característico do Bairro Barata Salgueiro, assim como o vestíbulo (sofreu bastante por ter sido vandalizado mas ainda é passível de recuperação) e a porta de entrada.

Na expectativa, apresentamos os melhores cumprimentos,


Paulo Ferrero, Bernardo Ferreira de Carvalho, Luís Aguiar, Luís Serpa, Virgílio Marques, Carlos Moura-Carvalho, Júlio Amorim, Fátima Castanheira, Miguel de Sepúlveda Velloso, António Araújo, Rui Martins, Miguel Atanásio Carvalho, João Oliveira Leonardo, Jorge Pinto, Bruno Rocha Ferreira, Maria do Rosário Reiche, Jorge Santos Silva, Martim Galamba, Pedro Ribeiro, Eurico de Barros, Beatriz Empis, Helena Espvall, Fernando Jorge e Guilherme Pereira

15/05/2017

Acudam! Património à venda!


In Diário de Notícias (14.5.2017), por António Barreto:

«O chamado Novo Banco herdou, do defunto Banco Espírito Santo, algumas colecções de arte ou patrimoniais que merecem atenção. São várias. A de artes decorativas, no Palácio Azurara, anexo à Fundação Ricardo Espírito Santo: pintura, azulejos, têxteis, prata, móveis, louça e ourivesaria. Parece haver, no acervo de pintura renascentista, barroca, clássica e moderna, algumas obras de real interesse, entre quadros de Josefa de Óbidos e, mais recentes, de Vieira da Silva e Paula Rego.

A colecção de numismática, ao que dizem a melhor de Portugal e uma das grandes colecções europeias, com mais de 15 mil exemplares de moedas de todos os tempos, romanas e gregas, ibéricas, anteriores à nacionalidade e portuguesas desde Afonso Henriques.

Uma colecção de fotografia contemporânea, sobretudo internacional, mas com alguns artistas portugueses importantes, faz parte deste espólio. Terá cerca de mil obras de considerável valor. Talvez mais orientada para o valor monetário do que para a qualidade estética, mas são gostos que se discutem. A colecção tem inegável valor patrimonial. Em Portugal, país pobre em fotografia internacional, esta colecção faz falta.

Uma "Biblioteca de estudos humanísticos", como o seu autor gostava de a designar, organizada durante toda a sua vida pelo professor e académico José Vitorino de Pina Martins. Compreende aquela cerca de mil obras raras de excepcional valor, assim como perto de oito mil volumes de consulta relativos a estudos clássicos e humanistas. Entre os autores das obras raras, verdadeiramente fundadoras da cultura europeia e exemplos maiores do humanismo renascentista, contam-se Erasmo, Maquiavel, Pico della Mirandola, Newton, Galileu, Montaigne, Thomas More, Dante, Boccaccio, Petrarca, Descartes, Camões, Sá de Miranda e outras figuras que deram extraordinário contributo para a história do pensamento e da ciência. São incunábulos e valiosas edições quinhentistas e seiscentistas, muitas delas únicas em Portugal e raras na Europa. Como em todas as colecções, há obras e peças de valor muito diferente. Mas alguns destes volumes são de excepcional qualidade e de valor mundial. São autênticos tesouros.

Parece que ninguém é favorável a que se vendam estas colecções ou que se deixem ficar todas num banco, em vias de estranha privatização. Consta que já existem projectos de resolução parlamentar da autoria dos partidos de apoio ao governo. Dizem que o ministro da Cultura já se exprimiu sobre o assunto. Mas nada disso deixa uma pessoa tranquila. Antes de saber que foram tomadas medidas definitivas tendentes a preservar estes pequenos tesouros, não se acredita nesta espécie de rumores. Casos recentes, que envolveram a exportação ou a venda de obras-primas, deixaram crescer as dúvidas.

Qual é a dificuldade em arrolar, classificar, expropriar (legalmente, claro!) e nacionalizar (a preços justos, com certeza!) tão importantes peças de património, únicas em Portugal? Por que razão é tão difícil o Estado português, que já nacionalizou tudo o que se imagine e cresça sob o sol, incluir estas colecções no bem comum? Um Estado que já expropriou quiosques e herdades, quintas e barbearias, além de bancos, petróleos, cimentos, seguros e electricidade, não consegue arranjar uns euros, alguma legitimidade, um argumento e um fundamento para enriquecer o património e não deixar ir embora obras-primas que nunca mais veremos? Não haverá entidades privadas que queiram, sem disso fazer campanha de propaganda, oferecer ao povo estas tão interessantes colecções?

O Estado português, o do corporativismo, o do socialismo, o do comunismo e o do capitalismo, tem tido dificuldades em agir, neste domínio da cultura e do património, com isenção e inteligência. Ora nacionaliza e expropria sem critério. Ora deixa correr sem rigor. Ora garante que não tem recursos financeiros e que "quem não tem dinheiro não tem vícios", ora paga tudo o que pareça ser chique e dê votos ou crie clientelas. Estas colecções oferecem uma oportunidade para o Estado, liberal e zeloso do bem comum, agir sem preconceitos.

As minhas fotografias


Aqueduto dos Pegões Altos, Tomar. Tem mais de 400 anos este formidável aqueduto, no vale dos Pegões, perto de Tomar, com cerca de seis quilómetros de extensão. São ao todo 180 arcos de volta perfeita, havendo por vezes duas séries de arcos sobrepostos. Alguns estão a mais de 30 metros do solo. Teve como principal missão a de levar água para o Convento de Cristo. É monumento nacional desde 1910. Quase desde sempre, anda descurado. À primeira vista, os arcos parecem sólidos e bem conservados, mas é ilusão. O aqueduto precisa de atenção! Há pilares em sério risco de colapso. Como parece ser uma sina, as "casas de água", nas extremas, com pias e tanques de decantação, estão vandalizadas e entregues a uns imbecis que gostam de deixar as suas mensagens amorosas, pornográficas ou futebolísticas inscritas nas paredes... O aqueduto foi mandado construir por Felipe II (I de Portugal), prova de que nem tudo o que vem de Espanha é mau! As obras começaram em 1593 e acabaram em 1619, ano em que a água fresca chegou finalmente ao dormitório dos monges do convento. Antes disso, pelo caminho e até lá chegar, regou as hortas, serviu o fontenário e as cozinhas e deu de beber a humanos e a animais.»

19/03/2017

SOS: Colecção de arte do Novo Banco


Artigo de Pedro Cassiano Neves, in Público (17.3.2017)


«Nascidos numas das mais proeminentes famílias da vida social e económica portuguesa do século XX, os três irmãos José, Ricardo e Manuel do Espirito Santo Silva, tiveram em comum, além da presidência do prestigiado banco com o seu nome de forma sucessiva, a reunião de apreciáveis colecções de artes.

Ricardo Espirito Santo foi, porém, muito mais que um coleccionador e o seu prematuro desaparecimento com 54 anos de idade não impediu que tivesse alcançando enorme notoriedade além-fronteiras e se tornado uma figura incontornável da história da arte em Portugal do Séc. XX. Dotado de uma esmerada educação, apurada sensibilidade e bagagem cultural, que conjugava com uma notória presença física e áurea de sportsman, integrou com naturalidade os círculos da mais elevada sociedade e alta finança europeia e americana, o que, aliado ao seu prestígio de banqueiro lhe permitiu constituir uma das mais ricas e diversificadas colecções da arte portuguesa de sempre e uma outra de arte francesa de relevância internacional.

Mecenas das artes, apoiou entidades públicas e privadas, organizou exposições, incentivou artistas e editou obras imprescindíveis para a nossa historiografia, como os quatro volumes do Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses de Fernando de Pamplona, a monumental Obras Primas da Pintura Flamenga dos Séculos XV e XVI em Portugal de Luís Reis Santos ou a magnifica revista A Arte de Ontem e de Hoje, dirigida pelo o seu amigo e pintor Eduardo Malta. O momento culminante, e certamente mais feliz, da vida pública de Ricardo Espirito Santo, aconteceu no dia de 28 de Abril de 1953, quando na presença das mais altas individualidades inaugurou o Museu-Escola da Fundação com o seu nome.

A Fundação Ricardo do Espirito Santo Silva situa-se desde o início num dos recantos de eleição da Lisboa histórica, as Portas do Sol, tendo para o efeito se procedido à aquisição e recuperação, literalmente "salvação", de dois emblemáticos palácios de Lisboa que no seu conjunto nos oferecem uma das mais soberbas frentes solarengas da capital. No Palácio Azurara, que remonta aos finais do século XVI e íntegra na fachada uma torre da cerca moura, foi instalado o Museu de Artes Decorativas Portuguesas, reunindo um vasto acervo de pintura, escultura, mobiliário, ourivesaria, porcelana, faiança, têxteis, encadernações, etc., criteriosamente escolhido pelo instituidor, que nos oferece uma panorâmica do melhor produzido em território português entre os séculos XV e XIX, assim como muitas outras peças provenientes de paragens longínquas mas connosco relacionadas. No contínuo, cerca de um século mais tardio, Palácio do Porteiro-Mor (Sousa e Mello), ficou alojado o "braço funcional" da Fundação, tendo a Escola e as Oficinas de Restauro, mas também de Criação, de algumas das referidas artes, desde então projectado o nome de Portugal nos quatro cantos do mundo.

Desde sempre sob a tutela do Estado, mas apoiada pela família e pelo banco a ela ligado, a recente crise financeira de que este foi uma das principais vitimas, veio pôr em causa a sobrevivência da Fundação, tendo uma forte reacção pública, o empenho dos responsáveis e o precioso apoio da Santa Casa da Misericórdia e da Câmara Municipal de Lisboa evitado aquela que seria uma perda irreparável do nosso património, sendo o espólio artístico classificado e assegurado o funcionamento do Museu, Escola e Oficinas. Mas esta campanha deixou na sombra um outro capítulo de igual emergência patrimonial do qual ninguém fala: o destino da extraordinária Colecção de Arte do Banco Espirito Santo.

Naturalmente vocacionada para as artes, como vimos, a política da segunda geração Espirito Santo, que dirigiu o Banco até 1973, foi prosseguida pelo banco até hoje, tornando-se o incentivo e a aquisição artística uma das suas "imagens de marca".

Trata-se de um requintado e variado conjunto de artes decorativas, que inclui mobiliário, cerâmica e têxteis e tem o seu expoente no relevante núcleo de pintura que abrange a Escola Portuguesa Clássica, como o conjunto de obras de Josefa de Óbidos recentemente exposto no Museu de Arte Antiga, e o do Morgado de Setúbal, e contemporânea, caso das esplêndidas telas de Eduardo Viana e de Vieira da Silva, mas também europeia, com a inclusão, também a titulo de exemplo, do magnifico óleo quinhentista de Quentin Metsys representando dois "Financeiros" ou o já famoso quadro com o desfile de coches no Paço da Ribeira aquando a chegando do Núncio Apostólico, "presença obrigatória" em exposições de temática setecentista, como a do “Triunfo do Barroco” da Europália, a da "Encomenda Prodigiosa" do referido Museu de Lisboa, ou da Embaixada Joanina do Marquês de Fontes ao Papa, actualmente no Museu de Coches.

Mas para além deste acervo "natural", o espólio bancário inclui também três riquíssimas "Colecções Autónomas", merecendo cada uma só por si a feitura de um artigo como este.

Pacientemente reunida durante mais de 30 anos e adquirida pelo Banco Espirito Santo na viragem do século, a impressionante colecção numismática do empresário Carlos Marques da Costa é a "(…) A mais completa e bem conservada até hoje em Portugal.” (Prefácio do respectivo Catálogo). São mais de 13 mil exemplares, notas e cédulas bancarias incluídas, que ilustram a História da Moeda em Portugal, abarcando a pré-nacionalidade com os períodos romano, suevo, visigodo e mudejar; a cunhagem de D. Afonso Henriques até a actualidade por cá e em todo o nosso Imperio; o chamado "Mundo Português", ou seja, a moedas europeias connosco relacionadas, como os "Portugaleseres" do século XVI, que eram réplicas do célebre português, feitas na Holanda e na Alemanha, as dos Grão-Mestres Portugueses da Ordem de Malta e as do "nosso" Conde de Lippe, e ainda mais de um milhar de espécies estrangeiras dos séulos. XVII e XVIII que enquadram a colecção. Um verdadeiro "tesouro", único e irrepetível, que urge preservar!

Alvo da cobiça estrangeira após a morte do seu criador e também ela ameaçada de dispersão, a importantíssima "Biblioteca de Estudos Humanísticos-Pina Martins", passou também a integrar o património do banco. Uma das maiores autoridades mundiais da literatura quinhentista e "número um" no estudo da obra do humanista Fiorentino Pico de Mirandola, o investigador e bibliófilo José V. de Pina Martins, que viveu largos períodos em França e Itália, reuniu um vasto e precioso conjunto de livros quinhentistas de um sem número de autores, incluindo de portugueses, sendo a obra do referido Conde italiano e também a de Thomas More sido tratado de forma exaustiva. Exposta de forma parcial na Gulbenkian em meados de 2015, a biblioteca inclui alguns conjuntos inestimáveis, como os 62 raros livros impressos em Veneza ao longo do século XVI na célebre Ooicina do editor Aldo Manutio.

Também parcialmente exposta no ano passado no edifício do banco do Marquês de Pombal, a eclética Colecção de Fotografia, iniciada em 2004 em simultâneo com o relevante certame anual do BES Photo, foi então alvo de artigo neste jornal (5-4-2016) intitulado: Qual será o futuro das 953 fotografias do Novo Banco, no qual justamente se questionava o destino desta "(…) impressionante colecção a nível internacional", de 280 artistas de 38 nacionalidades, “(…) considerada uma das 80 colecções empresariais mais importantes a nível mundial (…)".

A centenária colecção do Banco Espirito Santo está hoje integrada nos activos do Novo Banco, ou seja, está na posse do Estado, ou, dito por outras palavras, a extraordinária colecção de Arte do Novo Banco é hoje propriedade de todos os portugueses!

Assim sendo, e numa altura em que se prevê para muito em breve a venda do banco e correndo-se o sério risco de ela ir parar a "mãos estranhas", provavelmente estrangeiras, é obrigação do Estado Português conservar a Colecção na sua posse e coloca-la à disposição de todos nós, seja através de uma Exposição Integral, recuperando assim o projecto do "Museu do Banco Espirito Santo" dos antigos donos, seja a partir de uma divisão temática por instituições públicas, como os Museus Nacionais de Arte Antiga, do Chiado e dos Coches; os Museus de Serralves, Arpad Szenes-Vieira Silva e Numismático ou a Biblioteca Nacional, que seriam assim largamente enriquecidos.

Recentemente, num contexto "tirado da fotocópia" do que estamos a abordar, o actual Governo, com os dois ministros da Cultura, decidiu com firmeza e de forma exemplar, que a esplêndida colecção de Joan Miró, que proveniente do Banco Português de Negócios estava na sua posse, assim deveria continuar e passar a ser exposta publicamente. Uma decisão com enorme sentido de Estado, "vistas largas" e potencial retorno financeiro, que provocou uma onda de satisfação e aplauso de uma população que, farta de pagar do seu bolso "buracos financeiros" ao qual é alheia, se sentiu assim de certa forma "compensada".

O que agora se passa é precisamente o mesmo, e esta notável colecção que é de todos nós e que, por várias razões, nos diz ainda mais, deverá continuar a ser de todos nós! Os portugueses de hoje agradecem. E os de amanhã não nos perdoarão se tal não vier a acontecer! Tem a palavra o chefe de Estado, o primeiro-ministro e o ministro da Cultura.»