29/08/2013

Cottinelli Telmo. O arquitecto da companhia


In I Online (29.8.2013)
Por Rosa Ramos

«Desenhou o Padrão dos Descobrimentos e realizou o primeiro filme sonoro em português, "A Canção de Lisboa". O nome de Cottinelli Telmo ficou para sempre associado à arquitectura do Estado Novo e da CP

Era 1940, vivia-se o período áureo do Estado Novo e assinalavam-se duas efemérides. Por um lado, os 800 anos sobre 1140, a data da fundação da nacionalidade. Por outro, os três séculos da restauração da independência. Salazar pôs a máquina da propaganda a trabalhar e organizou um evento a uma escala nunca antes vista em Portugal: a Exposição do Mundo Português. À inauguração, a 23 de Junho, acorreram as maiores figuras do regime: do próprio Salazar ao cardeal Cerejeira, passando por Óscar Carmona ou Duarte Pacheco, na altura ministro das Obras Públicas e presidente da Câmara de Lisboa. Até Dezembro, os pavilhões construídos em Belém - para a posterioridade sobrou o Padrão dos Descobrimentos - receberam três milhões de visitas. Por trás do clímax da propaganda nacionalista estava o nome do arquitecto-chefe da exposição: Cottinelli Telmo.

Filho de uma pianista italiana, José Angelo nunca mais conseguiu descolar-se do rótulo de arquitecto do regime, até pelo número de projectos que assinou ao serviço do Estado Novo. Em 1930, e depois de ter feito carreira na CP - chamavam--lhe o "arquitecto da Companhia" -, recebeu a primeira encomenda de Salazar: o projecto do novo liceu de Lamego. Cottinelli foi seleccionado num concurso que acabaria por consagrar novos arquitectos e abrir o gosto oficial pelo modernismo em Portugal. Mais tarde, o Ministério das Obras Públicas encomenda-lhe os projectos de um conjunto de cadeias espalhadas por todo o país. A década de 1940 é de ouro para o arquitecto: Cottinelli desenha obras tão diversas como a Urbanização do Santuário de Fátima, a Cidade Universitária de Coimbra, o edifício do Governo Militar ou a Standard Eléctrica em Lisboa.

Mas a maior parte dos trabalhos foi mesmo ao serviço da CP. O primeiro grande projecto que os caminhos-de-ferro lhe encomendaram foi um imponente sanatório para ferroviários tuberculosos na serra da Estrela - considerado, à época, um dos maiores edifícios de toda a Península Ibérica. Muitas das antigas estações e apeadeiros de norte a sul foram idealizados por Cottinelli Telmo e construídos nas décadas de 1920 e 1930, altura de recuperação económica da Companhia dos Caminhos-de-Ferro e em que a arquitectura ferroviária era dominada por um padrão assumidamente nacionalista.

No entanto, o percurso de Cottinelli Telmo não se esgotou na arquitectura. Depois de ter passado pelo Liceu Pedro Nunes, entrou para a Escola de Belas-Artes, onde foi actor e compositor nos espectáculos que os alunos promoviam anualmente. Nessa altura integrou o grupo responsável pela revista "Sphinx" - que revelava novos talentos nas artes - e destacou-se nos bailados de Almada Negreiros e nas primeiras experiências cinematográficas de Leitão de Barros. Em 1933 assina "A Canção de Lisboa", com Beatriz Costa e Vasco Santana, o primeiro filme sonoro nacional e que inaugurou o género da comédia portuguesa. Pelo meio, Cottinelli Telmo ainda trabalhou na ilustração, em banda desenhada e como jornalista. A obra pode até ter sido extensa e variada, mas Cottinelli Telmo morreu cedo, com apenas 52 anos, num acidente de barco no Guincho. Dá nome a ruas em Lisboa, Sintra, Cascais, Amadora e Entroncamento.»

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