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20/11/2018

Posição da Associação Barreiro Património Memória e Futuro sobre: A classificação do Património Ferroviário do Barreiro em risco


A Associação Barreiro Património Memória e Futuro teve conhecimento, através da imprensa, que a CP Comboios de Portugal intentou um recurso hierárquico na Direcção Geral do Património Cultural (DGPC), o qual foi indeferido e, na sequência do mesmo, moveu recentemente uma acção administrativa em tribunal questionando a legalidade da classificação do Património Ferroviário do Barreiro.

Estes procedimentos por parte da CP Comboios de Portugal foram efectuados já depois de o processo de classificação se encontrar na fase Em Vias de Classificação, por publicação do anúncio de abertura em DR n.º 30, 2.ª série, de 12.02.2018.

Embora esta associação, não tenha conhecimento das razões que levaram a CP a tomar esta atitude contra a classificação, estranhamos o facto tendo em conta a informação de que dispúnhamos relativamente à anterior administração da CP, que era no sentido de não se oporem à classificação. Situação, aliás, idêntica à do anterior executivo da Câmara Municipal do Barreiro.

Desconhecendo nós até ao momento qual a posição do actual executivo camarário sobre esta matéria, embora já tenha sido colocada a questão numa reunião realizada com a Sra Vereadora e solicitada pela Associação (ABPMF).

A 25 de Setembro de 2017 a Direcção Geral do Património Cultural decidiu a Abertura de Procedimento de Classificação do Complexo Ferroviário do Barreiro integrando as Oficinas dos Caminhos-de-ferro, a Estação Ferroviária e Fluvial, a Rotunda das Locomotivas, o Bairro Ferroviário e seis locomotivas, um loco-trator, uma automotora e três carruagens, de acordo com o Despacho favorável do parecer do Conselho Nacional de Cultura, datado de 20 de Setembro de 2017. Este Conselho avaliou o conjunto patrimonial do Barreiro e concluiu que se trata de um património com “excepcional significado e dimensão rara, a tal ponto que a sua importância ultrapassa o contexto local e regional, assumindo-se como lugar/sítio/paisagem únicos no território português”.

É do conhecimento público que a CP EPE vendeu como sucata, materiais únicos existentes no Barreiro e no País, desbaratando desta forma bens e equipamentos fundamentais para a conservação da memória de um Povo e do País.

O comboio assumiu, a partir do Barreiro, um papel preponderante no desenvolvimento económico e social de toda a região Sul e do próprio País. O transporte de passageiros, ainda hoje, representa um meio de transporte urbano de importância relevante, na ligação do Barreiro à capital do Distrito, Setúbal.

Assim, defendemos que a actividade ferroviária, enquanto pólo gerador de emprego e dinamismo social, deve continuar e ser reforçada no Barreiro. Só desse modo pode contribuir para a riqueza e desenvolvimento integrado da região e do País.

Estas, também são razões que nos levam a considerar o Património Ferroviário do Barreiro como um elemento estratégico de desenvolvimento económico, social e cultural que pode, decisivamente, concorrer, para manter vivo um povo, uma cidade, uma Região. Defendemos, portanto, que a salvaguarda da memória e da história representada por este conjunto, entre edificado e não edificado, contribui para a atractividade do Barreiro em termos turísticos e de como, através dele, se pode contar a história completa desta actividade na região e no País.

Consideramos ser da maior importância a preservação de, pelo menos, parte do material circulante e outros equipamentos técnicos que, no seu conjunto, revelam e reflectem quer um modo de trabalho quer um modo de vida, que foi importante e pode voltar a ser, no desenvolvimento do Concelho, da Região e do País.

Por tudo isto, em nosso entender, estes bens culturais de âmbito Nacional hoje considerados Em Vias de Classificação, devem ser mantidos e preservados no Barreiro, até que seja possível concretizar a criação de um Núcleo Museológico Ferroviário.

Situação, aliás, que já estava a ser trabalhada com o anterior executivo da CMB, nomeadamente com negociações com a CP, IP e Museu Nacional Ferroviário. Foi também apresentado à CMB, por três associações, APAC, APAI e ABPMF, um projecto e constituído um grupo de trabalho para estudar a criação de um Núcleo Museológico Ferroviário com apoio do Museu Nacional Ferroviário.

Na nossa opinião não será a classificação deste património que irá pôr em causa a continuação do funcionamento das Oficinas no Barreiro. Ao contrário, a sua continuidade bem viva e em conjugação com um Núcleo Museológico, é que pode aumentar as potencialidades económicas do concelho.

Assim, as razões que levam a ter opinião diferente desta, só podem ter a ver com interesses económicos desconhecidos, nomeadamente imobiliários.

Continuamos a aguardar a tão necessária revisão do Plano Director Municipal do Barreiro, para que se possa por cobro à prevista construção de habitação no território das Oficinas e Bairro Ferroviário perspectiva que, nos dias de hoje, não faz qualquer sentido.

Barreiro, 6 de Novembro 2018


Associação Barreiro Património Memória e Futuro

13/07/2017

Pode ser que se safe, pode ser, a pobre da Tabaqueira:


Câmara de Lisboa discute alterações no loteamento dos Jardins Braço de Prata

In Diário de Notícias/LUSA (10.7.2017)

«O município de Lisboa aprecia na quinta-feira, em reunião privada, alterações pedidas pelo promotor ao loteamento dos Jardins Braço de Prata, como o aumento da área habitacional e do número de lugares de estacionamento público.

De acordo com a proposta assinada pelo vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, o pedido de alteração à licença foi feito pelo Fundo de Investimento Imobiliário Fechado -- LISFUNDO e abrange o empreendimento agora denominado "Prata" (ficou conhecido por "Jardins Braço de Prata"), nas ruas de Cintura do Porto de Lisboa, da Fábrica de Material de Guerra, Fernando Palha e do Telhal, na freguesia de Marvila. O documento, a que a agência Lusa teve hoje acesso, especifica que "a proposta de alteração ao loteamento visa, essencialmente, concentrar o uso de terciário" num dos lotes, reduzir a volumetria de um outro lote e "retificar alguns dos parâmetros urbanísticos aprovados". Entre as matérias a retificar estão o aumento da área habitacional (2.186 metros quadrados) por redução da área destinada ao uso terciário, o aumento da superfície de pavimento destinada a átrios e salas de condomínio (3.985 metros quadrados), a redução de área de alguns lotes (num total de 2.760 metros quadrados) e o aumento do número máximo de fogos (de 481 para 499). [...] A autarquia questionou a Estrutura Consultiva Residente e a Divisão de Estudos Urbanos, que emitiram pareceres favoráveis condicionados, solicitando um "estudo aprofundado em maior detalhe e grau de pormenorização" relativamente ao lote que abrange o edifício "A Tabaqueira", de forma a garantir a "reconstrução e o restauro do antigo pavilhão". [...]»

01/05/2017

Pode ser que este excelente artigo faça a CML puxar pelos galões e resgatar do limbo os magníficos armazéns do Beato... pode ser...


In Público (29.4.2017)
Por Alexandra Prado Coelho

«Um século depois, ainda se aprende com Abel Pereira da Fonseca


Era um visionário, o homem que criou uma rede de distribuição em Lisboa com as lojas Val do Rio e um império de produção de vinho, licores e destilados. A herança de Abel Pereira da Fonseca continua viva no Bombarral.

Diogo convida-nos a passar para a parte de trás da loja da Companhia Agrícola do Sanguinhal e, em cima de uma grande mesa de madeira, abre o velho livro. Os rótulos colados na primeira página são de 1932 — a data aparece, escrita à mão, com a letra elegante que se usava na época.

E a partir daí é toda uma história que se desenrola à nossa frente, a história de uma empresa que cresceu, que foi fazendo diversos vinhos e bebidas licorosas, que se expandiu e exportou para o mundo, tudo a partir daqui, no Bombarral e desta Quinta das Cerejeiras onde nos encontramos.

Por trás da história da Companhia Agrícola do Sanguinhal esteve um visionário cujo nome é, provavelmente, ainda hoje mais conhecido que o da própria empresa: Abel Pereira da Fonseca, bisavô de Diogo Fonseca Reis, que agora nos recebe e nos mostra o livro antigo no qual durante mais de duas décadas Abel organizou todos os rótulos e etiquetas da casa, com anotações avisando “ficou combinado usar este”, ou indicando qual tinha sido rejeitado [...]

O edifício mais emblemático do império Abel Pereira da Fonseca, em Lisboa, situava-se (e situa-se ainda) em Marvila, junto ao rio Tejo. Trata-se de um projecto de 1917 do arquitecto Norte Júnior e ficava perto do rio por razões óbvias: era por barco que as pipas de vinho produzidos nas propriedades do Bombarral e as várias bebidas licorosas produzidas pela empresa deixavam a capital para serem exportadas para países como o Brasil, os Estados Unidos, a Suécia e enviadas para as excolónias portuguesas em África — daí o símbolo da Abel Pereira da Fonseca ser um barco. A este junta-se outro meio de transporte que foi essencial para a empresa: o comboio. Era a linha do Oeste que permitia trazer até Lisboa o vinho produzido nas quintas do Bombarral.[...]»

...

05/12/2016

Antico complesso industriale dei Tabacchi ("Tabaqueira") - Lisbona - Richiesta patrimoniale


Foto do Ruin'Arte

Gentile Sr. Arch. Renzo Piano,


in quanto cittadini preoccupati com il patrimonio della cittá di Lisbona, veniamo a contattarlo per sapere se l’antico complesso industriale dei Tabacchi ("Tabaqueira"), localizzato nella piazzetta denominata “Praceta da Tabaqueira"/rua da Matinha” (identificato dall’immagine in allegato) sia o meno parte del progetto Braço da Prata Housing Complex e, se cosi fosse, se é previsto cosa sará previsto per l’antico edifico industiale.

Ci piacerebbe vedere recuperato l’antico complesso ottocentesco dell’antica Fabrica Tabacchi, e non solo il suo padiglione centrale, come fu annunciato anni or sono. Questo oggetto, ormai visibile come una reliquia industriale potrebbe essere trasformato in un mercato, spazi per ristoro, del tutto simile a ció che giá si fá. Tutto questo sarebbe abbastanza necessario in quella zona di Lisbona.

Lo stato di degrado di quasi tutta la struttura metallica dell’edificio é evidente, e parte é pericolante, ma sappiamo che é possibile intevenire nella struttura sia rafforzando la struttura sia recuperandola.

Detto questo, ci appelliamo a lei, Sr. Arch. Renzo Piano caso il progetto dell’antica fabbrica dei Tabacchi di Lisbona faccia parte del complesso Braço de Prata, possa difendere il suo recupero in tutta la sua estensione e possa cosi dargli un uso piú dignitoso e contemporaneo.

I nostri piú distinti saluti

Paulo Ferrero, Bernardo Ferreira de Carvalho, Fernando Jorge, Carlos Leite de Sousa, Júlio Amorim, Rui Martins, André Santos, Inês Beleza Barreiros, Jorge Santos Silva, Maria João Pinto, Fernando Silva Grade, Jorge Pinto, Fátima Castanheira, Maria Ramalho, Filipe Lopes, Paulo Dias Figueiredo, João Mineiro, Maria de Morais e Miguel Jorge

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Exmo. Sr. Arq. Renzo Piano


Enquanto cidadãos preocupados com o património da cidade de Lisboa, vimos contactá-lo para sabermos se o antigo complexo industrial da Tabaqueira, sito na Praceta da Tabaqueira/ Rua da Matinha (identificado nas imagens em anexo), faz ou não parte do Braço de Prata Housing Complex e, se fizer, o que se está previsto para aquele conjunto fabril.

Muito gostaríamos de ver recuperado na íntegra o ainda belo complexo oitocentista da antiga Fábrica Tabaqueira, e não só o seu pavilhão central, como foi anunciado há anos. Gostaríamos de ver esta ainda relíquia industrial transformada, quem sabe, num magnífico mercado com espaços de restauração e estufas, à semelhança do que se faz por esse mundo afora e algo que se torna cada vez mais necessário naquela zona de Lisboa, e viável do ponto de vista económico.

Reconhecemos o estado de degradação da quase generalidade da estrutura metálica do conjunto fabril da Tabaqueira, parte dela inclusive em pré-colapso, mas também sabemos que é possível o seu reforço estrutural bem como a sua recuperação integral.

Apelamos, por isso, ao Sr. Arq. Renzo Piano para que, caso a Tabaqueira pertença à zona de implantação do Braço de Prata Housing Complex, a recupere em toda a sua extensão e lhe dê um uso condigno e contemporâneo.

Melhores cumprimentos

16/07/2015

Para quê demolir esta linda garagem? Não sabiam fazer o tal de silo noutro local??


Esta era um linda garagem. Assim já podem fazer o estacionamento que queriam...sempre prensei que a preservassem no âmbito do tal projecto de requalificação do Campo das Cebolas e área circundante. Aliás tinham dito e escrito que iriam construir o silo noutro local pelo que a garagem estaria salva. Puro engodo. Pelos vistos vão construí-lo ali à mesma. Ou, pior, não vão e demoliram à mesma a garagem. Lindo, em 2015- Ano Europeu do Património Industrial e Técnico. Estamos sempre na "crista da onda".


Fotos: Tomaz Bairros e António J. Trindade (in Grupo Facebook do Fórum Cidadania Lx)

24/04/2015

O nosso modo sui generis de comemorar o Ano Europeu do Pat. Industrial e Técnico:


Há muito que se adivinhava o futuro do magnífico complexo da antiga Fábrica José Domingos Barreiro (fachada principal em foto acima, do edifício principal de gaveto com a Praça Leandro da Silva), vizinha de frente dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca e da Fábrica de Braço de Prata, cuja descrição consta aqui: http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=26915, e que se mantém inexplicavelmente (tal como A Napolitana, por exemplo, em Alcântara) até aos nossos dias sem qualquer tipo de protecção administrativa.

Pelo que este boneco de cima, do site promotor imobiliário (http://bpiexpressoimobiliario.pt/Pr%E2%80%A6/Lisboa/Marvila/a7940573) não é propriamente uma grande novidade, ainda que má, pois implicará a demolição total de todos os corpos da frente de quarteirão do lado da Rua Fernando Palha (foto actual em baixo), com a já clássica manutenção da fachada.

No fim da operação imobiliária, que também implicará a construção maciça no lote vago paralelo aos Armazéns Pereira da Fonseca, mas que não fará grande mossa, só restará da antiga Fábrica José Domingos Barreiro o edifício majestoso de gaveto, e vamos lá ver se não será também a fachada.

Temos um modo sui generis de comemorar o Ano Europeu do Património Industrial e Técnico.


09/02/2015

Sobre a n/recente visita à Estação do Rossio, aqui fica este belo artigo do Público:



In Público
Por ALEXANDRA PRADO COELHO (Texto) e JOÃO CATARINO (Ilustração)

«Estação do Rossio, Lisboa : Antes chegava-se a Paris, hoje chega-se a Sintra

No final do século XIX a Estação Central era o terminus do famoso Sud-Express, que ligava Lisboa à capital com que todos sonhavam: Paris.

Olhamos para um edifício milhares de vezes, distraidamente, e não pensamos como, um século antes, os nossos bisavós olhavam para ele de uma forma totalmente diferente. Não há como olhar hoje para a Estação do Rossio, na Baixa de Lisboa, e pensar que está ali a nossa ligação ao mundo. Porque, de facto, não está. Daqui parte-se para Sintra.

Mas no final do século XIX era desta Estação Central — o nome continua lá, desenhado sobre a porta principal — que, a partir de 1891, partia o célebre Sud-Express, que levava os passageiros até à Gare de Orsay (nos anos 30 podia-se mesmo ir de Paris até ao Estoril).

“Tornou-se moda ir a Paris. A gente ‘chic’ e até os pelintras ajanotados emigravam uma vez cada ano”, conta um texto assinado por Rocha Martins e publicado na Gazeta dos Caminhos-de-Ferro já nos anos 30, recordando como décadas antes tinha sido uma excitação para os lisboetas ganhar, num local tão central como o Rossio, “aquela estação magnífica e seus comboios luxuosos e velozes”.

Estamos, portanto, em Lisboa 2015. São dez da manhã e um grupo grande de pessoas reúne-se junto ao Teatro Nacional D. Maria II para, a convite do Fórum Cidadania Lisboa, e com visita guiada, a pretexto do Ano Europeu do Património Industrial e Técnico, conhecer melhor a Estação Central. Jorge Custódio, especialista em arqueologia industrial, convida-nos a olhar para a estação, do outro lado da rua, e também para o Hotel Avenida Palace, ao lado, e recorda como os dois são, na realidade, um conjunto — e, apesar dos estilos diferentes, da autoria do mesmo arquitecto, José Luís Monteiro.

Se a fachada da estação parece vir de um século muito mais longínquo, o seu interior é totalmente século XIX e um exemplo da arquitectura do ferro em voga nesse tempo

A estação foi inaugurada em 1890. A construção foi rápida, em apenas quatro anos o largo conhecido como Camões, que ali existia, desapareceu. Anteriormente, segundo o relato de Rocha Martins, havia no local “o prédio do duque de Cadaval a um lado, para trás o pátio da caçada do Duque, a cerca da Misericórdia, o pátio do Penalva, e, junto do palácio ducal, uma casa de D. Francisco de Assis de Almeida com oito janelas de frente como a do outro grande fidalgo”. E por detrás, “onde ia romper-se o túnel” eram os Recreios Withoyne, local muito popular na cidade, com os seus espectáculos de circo.

Mas Lisboa tinha pressa em modernizar-se e tudo isto desapareceu para dar lugar à estação, com a sua fachada de estilo neomanuelino, em cima o medalhão com a efígie do rei D. Luís I, e em baixo, ao centro, uma estátua na qual muitos tentaram ver D. Sebastião, mas que, tudo indica, representa apenas a figura de um jovem pajem. Se observarmos as grandes janelas centrais, adivinhamos no interior uma sala imponente (desta vez não houve autorização para a visitar) — era a Sala do Rei, onde o monarca esperava a chegada do comboio, ou onde recebia as individualidades que viajavam até Lisboa.

Para quem estiver atento, apesar das muitas modificações que sofreram, os edifícios continuam a tentar contar-nos a sua história. Jorge Custódio convida-nos a atravessar a avenida e a olhar a fachada lateral do Hotel Avenida Palace, inaugurado quatro anos depois da estação, e que servia de apoio aos viajantes trazidos pelos comboios. Era aí a porta principal do hotel, virada para a avenida. Hoje, entre as colunas, instalou-se um “Espaço Emprego”, e já ninguém entra para o hotel por aqui. Olhando para a fachada, vemos duas estátuas, que Jorge Custódio identifica como Vulcano e, possivelmente, Atena, a data de 1892, um misterioso relógio sem ponteiros, dois imponentes leões alados, e um brasão com um conjunto de letras entrelaçadas: Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses.

Entramos para o hall do Avenida Palace — que inicialmente se chamou Hotel Terminus — pela porta do lado oposto, virada para a lateral da estação, e no interior, por entre os reposteiros vermelhos e as decorações douradas, e sob o impressionante tecto de vitral, reencontramos várias vezes os mesmos leões alados e letras entrelaçadas, prova dessa relação próxima que no século XIX havia entre o hotel e a estação (a célebre porta que ligava os dois, e que se diz ter sido utilizada por espiões instalados no hotel durante a II Guerra Mundial, está actualmente fechada).

E se a fachada da estação parece vir de um século muito mais longínquo, o seu interior é totalmente século XIX e um exemplo da arquitectura do ferro em voga nesse tempo — e, sublinha Jorge Custódio, ainda muito próxima do que era originalmente. Ao fundo surge o túnel que muito impressionou os lisboetas quando foi construído. São 2613 metros, o mesmo comprimento da Ponte 25 de Abril.

E não há melhor forma de terminar este texto do que citando novamente Rocha Martins na Gazeta dos Caminhos-de-Ferro: “Bem merece um novo artigo este túnel que talvez um dia não seja utilizado. Quando a Companhia dos Caminhos de Ferro construir a sua nova estação, que nos dizem ser em Entrecampos, o túnel das nossas travessias não passará de uma recordação. E quantos, ao evocarem-no, não verão os deslumbramentos de Paris, aonde chegaram tendo aquela treva por início de viagem à cidade da luz!”»

02/02/2015

Dar uma 2ª oportunidade à Torrefacção Lusitana (Bairro Alto) em Ano Europeu do Património Industrial e Técnico


Exmo. Senhor Presidente da CML
Dr. António Costa,
Exmo. Senhor Vereador do Urbanismo
Arq. Manuel Salgado


C.C. DGPC, AML, JF

Em "Ano Europeu do Património Industrial e Técnico", iniciativa do Conselho da Europa (http://www.industrialheritage2015.eu/), somos a solicitar a atenção de V. Exas. para o edifício da antiga Torrefacção Lusitana, sito na Rua Nova do Loureiro, de que anexamos imagens e sobre o qual foi aprovado pela CML (por delegação de competências) um projecto de ampliação em 2008, conforme plantas também em anexo.

Independentemente das considerações patrimoniais, urbanísticas, estéticas e afectivas então tecidas por nós acerca deste projecto, sem que tenhamos tido sucesso junto da CML e do IGESPAR (ex. as medidas preventivas decorrentes da classificação do Bairro Alto como IIP e a protecção ao Chafariz da Rua do Século, o legado industrial, etc.), e chegados a 2015, decorridos 7 (sete) anos sobre essa aprovação, solicitamos a V. Exas. esclarecimento sobre se a referida aprovação não terá já caducado, tal como os direitos adquiridos então pelo promotor, que, recorde-se, colocou à venda os apartamentos do futuro edifício, antes até da construção avançar.

Nesse sentido, solicitamos igualmente V. Exas., que nos esclareçam sobre se a CML já intimou o proprietário a fazer as necessárias obras de manutenção do edifício em causa , e se será possível à CML encetar negociações com o mesmo de modo a que seja encontrada outra solução para a antiga Torrefacção Lusitana, que não passe pela ampliação do edifício existente nem por construção nova a tardoz (quiçá pela compensação ao promotor de créditos de construção para outro local da cidade), permitindo à cidade dignificar a herança industrial em causa, corrigindo erros de um passado não muito longínquo [ex. demolição da Fábrica de Chocolates Favorita (Sapadores), alteração irreversível e ilegal da antiga engomadoria Ramiro Leão (Pena) e demolição de uma série de armazéns e antigas unidades industriais no eixo Boavista-Alcântara], recolocando o município em sintonia com os objectivos da iniciativa do Conselho da Europa e no trilho das boas-práticas internacionais no que se refere à arqueologia industrial.

Na expectativa, subscrevemo-nos com os melhores cumprimentos


Paulo Ferrero, Bernardo Ferreira de Carvalho, Pedro Henrique Aparício, Maria do Rosário Reiche, Júlio Amorim, Luís Marques da Silva, Rui Martins, Virgílio Marques, Alexandre Marques da Cruz, Beatriz Empis, Irene Santos, João Oliveira Leonardo, Miguel de Sepúlveda Velloso, Vítor Vieira, Nuno Caiado e Alexandre Pereira da Silva