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18/11/2016

Forte-Presídio da Trafaria aberto ao público até 11 de Dezembro


No âmbito da Trienal de Arquitectura de Lisboa (http://www.trienaldelisboa.com/theformofform/en/locais/antigo-presidio-da-trafaria-2/) está aberto ao público, até 11 de Dezembro e de Sexta-feira a Domingo, o Forte-Presídio da Trafaria. Mandado construir pelo rei D. Pedro II, em 1683, este edifício tem uma história palimpsestica: foi fortaleza, lazareto, presídio durante o liberalismo e no Estado Novo, fábrica de guano de peixe, viveiro das matas nacionais, abrigo de galeotas reais e habitação particular.


Merece também uma visita o centro histórico da vila piscatória da Trafaria, cuja existência remonta há pelo menos cinco séculos, e tem na sua história um evento aterrador: em 1777, o Marquês de Pombal ordenou a Pina Manique incendiar o local por causa dos desertores ao serviço militar que para lá fugiam.  É também por isso que a maior parte do património edificado da Trafaria é posterior a este traumático evento e no centro histórico é a arquitectura dos séculos XIX e XX que pode ser apreciada, apesar da incúria a que foi sujeito: arquitectura balnear (a Trafaria foi a primeira colónia balnear inaugurada pela Rainha D. Amélia, que a frequentava), de lazer (Casino), institucional (Capitania e Escola Primária), comercial (Casa Botas) e industrial (fábricas de peixe e conservas e dinamite, hoje em ruínas).
O lugar da Trafaria era também local predilecto de Bulhão Pato (e em qualquer restaurante se podem degustar as ameijoas à sua moda), onde o intelectual se entretinha a caçar e a cozinhar para amigos, tendo convertido muitos deles às delícias e encantos do local.





Hoje a Trafaria está longe de ser o local idílico que já foi um dia, sobretudo com a implantação dos silos de cereais nos anos 80, que não só a desfiguram como também desfiguram a vista que dela se tem de Lisboa (haja coragem para implodir com aquele mono e todos os outros que hoje agridem as vistas que se têm da Margem Sul desde Lisboa). Porém, a Trafaria ainda resiste em sobrevivências várias absolutamente encantadoras. Haja olhos dispostos a saber ver o potencial que encerra, a recuperá-la, a habitá-la e a amá-la (e sim, este pequeno texto é uma declaração de amor ao lugar).

É verdade que começa a sentir-se uma tímida atenção: a Câmara Municipal de Almada parece finalmente apostada em recuperar e apoiar a recuperação do seu património (através do programa ARU de incentivo a particulares); o colectivo Plataforma Trafaria instalou-se agora no Presídio (https://www.facebook.com/plataformatrfr/?hc_ref=PAGES_TIMELINE), promovendo uma reflexão prática sobre os usos futuros do mesmo em diálogo com artistas, criadores, pensadores portugueses e internacionais e, não menos importante, trafarienses; uma arquitecta recuperou uma bela casa coberta de azulejos para alojamento local (já se vêem alguns turistas que aqui escolhem ficar, a meio caminho entre Lisboa e as praias da Costa da Caparica, facilmente acessíveis através da ciclovia); e alguns jovens pioneiros que assentaram arraiais, contra todas as probabilidades. Para quem trabalha em Lisboa e está farto da turistificação em que a cidade está convertida, habitar na Trafaria pode ser uma opção mais barata e mais tranquila, passando também a fazer parte deste movimento de renascimento que já se faz sentir na pequena vila às portas da capital.

Façam, então, a bela viagem de barco que liga Belém à Trafaria (atenção aos horários que são escassos), desfrutando das vistas para uma margem e outra, visitem o presídio, o centro histórico e almocem ou jantem num dos seus muitos e bons restaurantes (aconselho a Casa Ideal, na Rua Tenente Maia).

Mais informações sobre as exposições patentes no Forte-Presídio da Trafaria, aqui:
http://visao.sapo.pt/actualidade/visaose7e/sair/2016-11-05-Ha-muitas-historias-para-contar-no-Antigo-Presidio-da-Trafaria

Fotografias: Almada Virtual Museum, Blog Restos de Colecção e Visão.

5 comentários:

Carlos Barradas Leal disse...

Caros amigos,
Agrada-me muito esta ideia e este tipo de iniciativas.
Contudo, no que diz respeito à História há que tomar algum cuidado na utilização/divulgação da informação. Concretamente destacando os pontos que me parecem merecer retificação:
Não está demonstrado que que Sebastião José tivesse alguma vez mandado incendiar a Trafaria.
A Rainha Dª Amélia não inaugurou nenhuma colónia balnear nem era frequentadora da Trafaria. Foi 1 vez à Trafaria “amadrinhar” uma iniciativa da Assistência Nacional aos Tuberculosos que levou muitas crianças carenciadas de Lisboa, a banhos à Trafaria.
Embora Bulhão Pato tivesse passado férias na Trafaria (comprovadamente em 1878) e a partir do Torrão efetuasse excursões cinegéticas pelo Juncal, não consta que a Trafaria fosse seu lugar predileto. Tanto mais que viria a fixar residência na Torre, e aí sim, lugar de famosas comezainas onde não consta que que amêijoas participassem do menu.
O Forte da Trafaria como edificado já não existe desde 1909 (em termos operacionais desde 1832). O que existe hoje em dia é o Presídio construído em 1908/1909, também conhecido no século XX como “Casa de Reclusão”.
E agora algumas considerações pessoais:
Reparem que o último postal “postado” é muito claro quanto ao sentido da estrada: “para a Trafaria”, não se trata de qualquer outro destino. É já tempo de a Trafaria não ser sítio de passagem (marcador da sua História), há toda a conveniência em ser lugar de destino.
A Casa ideal, para mim o local predileto para se comer na Trafaria.
Chamam mono aos silos? No meu entendimento é um abcesso.

Inês B. disse...

Obrigada pelo seu comentário. Se quiser deixar aqui referências para a História da Trafaria, muito lhe agradeço, porque elas são escassas.
Em relação ao incêndio do Marquês de Pombal é talvez efabulação romântica de Camilo Castelo Branco, embora baseada em certa tradição oral, e os historiadores são prudentes em assumi-lo, é verdade, precisam de documentos. Assim exige o método.
Em relação ao Bulhão Pato, há um livrinho muito interessante publicado pela CMA sobre a sua ligação ao lugar da Trafaria, que inclui o Torrão como é evidente. Bulhão Pato escreveu e fez poemas sobre o lugar da Trafaria, as Terras da Costa de uma maneira geral, e até sobre o presídio, nomeadamente sobre as atrocidades que aí se cometerem no tempo da ditadura de João Franco. E sim, segundo essa literatura, cozinhava e terá sido o inventor das famosas ameijoas (embora haja literatura da área da história da culinária que o negue).
Há também referências que consubstanciam a ida da rainha D. Amélia mais do que uma vez e há até a possibilidade de esta lá ter pernoitado no dito edifício.
Nada contra a Trafaria ser "local de destino" e "não de passagem". O meu texto alude a isso mesmo. Jamais poderia dizer o contrário porque a minha avó era natural da Trafaria e conheceu o meu avô quando este fez a tropa no presídio justamente. Lá construíram uma vida e foi lá também que a minha mãe nasceu. Inclusive, eu ainda tenho família muito chegada que lá vive. É portanto um local que conheço muito bem e frequento desde criança, tendo lá passado estendidas e felizes temporadas.

^ disse...

Minha cara Inês,
Bem sei que são escassas as informações sobre a História da Trafaria (e quase sempre com pouca preocupação de rigor).
Exatamente por sentir esse problema, escrevi em 2014 um livro chamado OuTrafaria, editado pela Junta das Freguesias. Peça-o à Junta ou ao Centro de Arqueologia de Almada porque foi escrito para distribuição gratuita.
Antes de escrever sobre o seu comentário, deixe-me acrescentar mais uma observação ao texto do post: aquele complexo que hoje se conhece não foi presídio durante o liberalismo.
Relativamente ao incêndio do M. Pombal, a primeira vez em que tal aparece referido foi em 1867 por Luz Soriano. Passaram-se 90 anos da eventualidade... no OuTrafaria há um capítulo dedicado a este assunto.
Atenção às "atrocidades que aí se cometerem no tempo da ditadura de João Franco". João Franco teve o cargo equivalente ao que hoje consideramos de 1º ministro, no final do reinado de D. Carlos (1906/1908), as atrocidades que Bulhão Pato se refere dizem respeito aos abusos de poder que Alexandre Evaristo de Lemos (conhecido por "Cabecinha à Banda"), perpetrou enquanto Comandante do Presídio e Forte da Trafaria no período Miguelista (1830/1832).
Pela documentação que disponho B. Pato passou férias na Trafaria em 1878, por lá passou para ir à caça e viveu depois dessa data, e morreu, na Torre de Caparica. Não conheço nenhuma fonte que me comprove a autoria das amêijoas à Bulhão Pato ao mesmo.
Oh Inês, se tiver documentação relativa a idas frequentes da Rainha Dª Amélia à Trafaria, muito agradeço que me dê a conhecer.
Vá à minha página de FB e através de mensagem privada, envie-me sff o seu endereço de email, porque por essa via poderemos trocar informação muito mais substancial.

... também sou da Trafaria, por lá vivi cerca de 30 anos, por lá tenho família e lá vou com frequência...

Carlos Barradas Leal disse...

Inês,

Há aqui vários temas e questões para clarificar.
Através da minha página do FB (Carlos Barradas Leal), nas mensagens privadas, envie-me o seu endereço de email porque por essa via será mais prático trocar informações sobre a História Local, nomeadamente fontes e a respetiva credibilidade.
Entretanto tente junto da Junta das Freguesias(Caparica + Trafaria) ou do Centro de Arqueologia de Almada a obtenção de um livro chamado OuTrafaria, escrito para distribuição gratuita, para divulgação da História da Trafaria.
Espero pelo seu contacto.

Inês B. disse...

Bom farei o que me diz e vou contactá-lo pessoalmente. É verdade que eu até tinha obrigação de procurar ser mais correcta cientificamente, mas o post não era propriamente sobre a Trafaria, mas para dar conta ao membros do Fórum e a quem segue o seu blog e facebook a abertura do presídio a visitas, eu é que depois me entusiasmei a falar de um lugar de que, está visto, historicamente sei muito pouco (e as poucas coisas que sei são filtradas por memórias dos meus avós e pelas leituras da minha irmã, confesso). Obrigada pelas achegas e com certeza vou pedir o seu livro e lê-lo com todo o gosto. Porém, já dizia o historiador Tengarrinha, João Franco foi um ditadorezinho avant la lettre sim senhora!)