13/07/2014

A Insustentável Leveza do Património

Estava a preparar-me para aceder ao Cidadania Lx, com a tal apreensão típica dos cães de Pavlov que salivavam ao som da campaínha mas que no meu caso é o aumento da pressão arterial, para publicar este artigo que estão a ler, quando me apercebi das duas novas entradas do colaborador deste espaço Miguel de Sepúlveda Velloso, que nos habituou a informação detalhada sobre património que se vai desbaratando. Então pensei se deveria publicar o meu artigo porque afinal é Domingo e temos de ter tempo para digerir as notícias que lemos por aqui. Mas já que estava com os dedos no teclado decidi avançar porque afinal o que tenho para vos contar é o culminar de um longo processo, sobejamente discutido aqui e, acreditem, fez-se bastante para evitar este resultado.
Todos se lembram, certamente, do conjunto único de edifícios mandados erigir por Sottomayor para rendimento de classe superior na Avenida Duque de Loulé e do que aqui se escreveu sobre eles. Vejam, por exemplo, aqui.
Pois é, o processo de intervenção sobre este conjunto de edifícios dava um filme de mistério e intriga. Tentaram os promotores a sua demolição. Não conseguiram. Numa das tentativas o projeto foi autorizado desde que mantivessem os elementos decorativos preciosos. Começaram as obras por destelhar o edifício e depois pararam as obras por falência do promotor. Vieram várias estações de chuva e, surpresa, os interiores estavam "irrecuperáveis" segundo o novo dono de obra, uma empresa do grupo Espírito Santo, já responsável pela destruição de um palacete na mesma avenida (ver) e de muitas outras malfeitorias ao património desta cidade, como o edifício do Bigaglia na Rua Rosa Araújo, etc.
Estão, de facto, a demolir os interiores. Conseguiram!
Assim, quero voltar a dar os meus parabéns a Lisboa, aos Lisboetas, à CML pela negligência a toda a prova demonstrada na proteção do património desta cidade, ao Presidente da CML que, a julgar por este caso será o Primeiro Ministro que o país precisa, ao Vereador Salgado porque mais uma vez não salvou umas "pedrinhas", ao IGESPAR pela não classificação, à DGPC por contribuir para o défice público porque pouco mais faz, ao Provedor de Justiça porque não viu nada de suspeito neste processo, à Polícia Judiciária pelo seu novo edifício faraónico (que "caiu" em cima de outro que devia ter sido classificado) mas que não tem disponibilidade para entrar a fundo neste processo específico e noutros relacionados com o imobiliário, à Espírito Santo Imobiliária por contribuir para a preservação do património (quando é que vão fechar o ESAD porque afinal não faz sentido ensinar artes decorativas e ter uma acção absolutamente grosseira com o património arquitetónico da cidade) e por mostrar que, apesar dos problemas que vêm a enfrentar, não perderam o jeito...
Os interiores magníficos deste conjunto de edifícios começaram já a ser demolidos. Vêm aí os tectos falsos, as cozinhas design, as casas-de-banho minimalistas, enfim, tudo de bom e que o povo gosta...


8 comentários:

Anónimo disse...

"Não podemos preservar tudo em formal" dizia o outro demagogo...

Mas a verdade nua e crua é que eles não preservam absolutamente NADA!



Anónimo disse...

Enquanto lá estiveram só roubaram e com a justiça à perna - não é por graça que o partido que gere a minha
camara de LISBOA obteve a maioria nunca dantes obtida -

Madragôa é Linda

CTravassos disse...

Lamentável. Uma burrice tremenda. O verdadeiro luxo seria fazer uma recuperação inteligente, dotando estes apartamentos de modernos sistemas de climatização e isolamento, mantendo o charme insubstituível dos interiores originais. Que falta de sentido comercial...
Talvez não avance e seja vendido, agora que o Espirito Santo vai ter que desfazer-se de muito património!

CAP CRÉUS disse...

Excelente texto, para um assunto mais que batido, e que por mais que falemos sobre ele, os outros ficam sempre a ganhar.
Porque de facto é isso que o povo quer e gosta.
Somos cada vez mais tristes e saloios.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Muito obrigado pelas simpáticas palavras que me dirigiu sobre o que vou publicando. O mesmo é válido para o seus textos.

Este é mais um exemplo disso.

Em relacao aos prédios, nao havia uma empresa que iria recuperar um destes três magníficos? Um dos representantes até esteve presente na conferência que organizámos sobre "Lisboa Entre Séculos - arquitectura ameacada."

Dois seriam destruídos, mas o gaveto seria recuperado na íntegra.



A. M.C. disse...

Olá Miguel,
o que nos conta não sabia. Se tal é verdade e é o que farão, então é um terço do pecado, mas pecado ainda assim!

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Sim, um enorme pecado. Absolutamente de acordo.

Abc

jac disse...

Se os interiores deste prédio eram magníficos, o seu proprietário assim não os considerou e por muito que custe está no seu direito.
Quem quiser impedir os tectos falsos, as cozinhas design e as casas-de-banho minimalistas tem um bom remédio: compra estes prédios.