03/07/2014

Passeio pela Rua Fernandes Tomás ao Alto de Santa Catarina

A antiga entrada da antiga fábrica de vidros foi completamente rasgada para mais uma futura garagem para mais um futuro condomínio. Rebentaram-se os arcos de cantaria, portas altas de ferro, panos de azulejos.

Nota-se um resto de um arco de cantaria. o do lado oposto é agora uma massa de betão que espera a colocação do enorme portão de chapa/ferro da garagem.

Um pormenor, por cima deste magnífico portão seiscentista/setecentista, um braço que sustenta uma cãmara de vigilância. 
Fachada colossal da antiga fábrica de vidros. A Five Stars por todo o lado e por todo o lado a demolição integral de interiores, remoção de ferros, de azulejos, de portas de época.

De todas as localizações possíveis, esta foi a melhor. Dito portão que abre para um pátio palaciano, gaveto R. fernandes Tomás-Rua das Gaivotas. Filmasse esta cãmara a desfaçatez com que a Cãmara, DGPC e demais intervenientes no espaço público tratam o património histórico de Lisboa.

Um pouco mais acima, uma casa da arquitectura Entre-Séculos (XIX-XX).
Sobrou só mesmo a fachada e mesmo nessa já nem as ferragens existem.

Este é o miolo, ou melhor a falta dele.

Esta é a lixeira que ocupa o espaço do antigo miolo. Está assim há já algum tempo. 

Da falta de tudo ao céu. Em Lisboa as distãncias impossíveis são curtas. Esta é a cidade em que vivemos.

Um pouco mais acima, começa o reino das fachadas completamente desfiguradas pelos rasgões que representam as garagens. carros? Sim podem ser um problema. Será esta a solução melhor? Duvido. Quando uma rua num centro histórico se transforma em fachadas desequilibradas, cheia de portas cegas, avessa a uma vida de bairro, suspeito que outra solução podeira ser pensada. por exemplo, no famigerado parque da calçada do Combro, reservar vários lugares para residentes. 

E mais outra.

E outra ainda

E tudo continua

Mais uma pérola da originalidade de senhores arquitectos, projectistas e clientela. 

É esta uma das formas de reabilitação que as diferentes vereações têm defendido ao longo dos últimos anos. Asséptica, banal. Tanto podia ser nesta cidade "ganhadora" de óscares de turismo, como em Bruxelas, em Paris, em Londres.

O desrespeito pelo património em Lisboa não é coisa de hoje nem de ontem, já vem de longe. Singular e embrutecedor acrescento num palácio do século XVIII com excepcionais janelas de sacada no andar nobre.

Onde havia um palácio (dos Condes de Murça) há agora um moderno silo automóvel. Solução brilhante encontrada por uma certa vereação y sus muchachos. No alto há um bar onde a juventude dourada de Lisboa, pode admirar os dourados crepúsculos lisboetas. É verdade que se roubam carros às ruas, mas também é verdade que se rouba história a Lisboa.

Valha-nos a arte pública em Lisboa. Tira-nos as palavras da escrita. É verdade, falamos para o vazio. Lisboa é hoje palco de todos os interesses. O menor é o do ordenamento urbano, salvaguarda do património, valorização do centro histórico, reabilitação que não se limite ao fachadismo, quando não à destruiçõa total dos bens edificados. Lisboa merece mais e melhor. Os lisboetas, também.

18 comentários:

Anónimo disse...

"Quando uma rua num centro histórico se transforma em fachadas desequilibradas, cheia de portas cegas, avessa a uma vida de bairro, suspeito que outra solução podeira ser pensada. por exemplo, no famigerado parque da calçada do Combro, reservar vários lugares para residentes. "


Ora nem mais. Trabalho em Lisboa e tenho notado isso mesmo.
Em algumas zonas bem centrais é a desordem completa. Um tutti-frutti! Ainda por cima este tipo de casos tem aumentado exponencialmente nas requalificações mais recentes.
As fachadas dos edifícios localizados em bairros históricos estão cada vez mais parecidas com as fachadas do edificado que envolve a zona histórica.
A homogeneização a caminho!

E acham que Lisboeta se importam?
Pelo contrário.

Como diz um colega que mora ali em Arroios e que é licenciado em Urbanismo:
"Desde que seja moderno e prático está tudo bem."

É caso para dizer: Que miséria de geração moderna e prática!

Filipe Melo Sousa disse...

O autor do post é livre de comprar um dos prédios e fazer o tipo de remodelações que entende serem esteticamente agradáveis.

É lamentável que se critique todo o tipo de iniciativas, inclusive as que tiram carros dos passeios, e que se prefira embargar toda e qualquer obra, deixando Lisboa numa ruína na qual ninguém quer ou pode pegar.

Anónimo disse...

Já que estamos a falar de fachadas descaracterizadas;
Ontem, durante a transmissão da transladação dos restos mortais de Sophia Mello Breyner para o Panteão, pude observar o requinte das novas e belíssimas janelinhas/caixilharias que colocaram nos vãos
do edifício cor-de-rosa que está mesmo ao lado do Panteão.

Digam lá se não é de um charme sem fim:

https://www.youtube.com/watch?v=0XNJrZZ1Pkg

A. M.C. disse...

Alguém tem fotografias do edifício ao lado do panteão, actuais? Queremos questionar quem de direito sobre as caixilharias mas precisamos de fotografias. Caso sim é enviar, por favor, para o email do Cidadania Lx.

Paulo disse...

A legislação obriga os arquitectos a ter não sei quantos lugares para estacionamento, logo eles tem de fazer essas garagens. São obrigados a tal.



Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Esse edififício é antigo convento do Desagravo do Santíssimo Sacramento. Se tiver tempo passarei por lá.

Anónimo disse...

o parque da calçada do combro já tem vários lugares reservados a residentes. aliás apenas os residentes podem entrar pela entrada da calçada do combro. quem não é residente entra pela travessa andré valente.

A. M.C. disse...

Obrigado!
Caso possa tente fazer um artigo sobre o edifício e as malfeitorias que lhe fizeram.
Os seus posts são ótimos e cheios de informação!
Abraço

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Caro A.M.C.

Obrigado pelo seu comentário encorajador e por seguir este blogue.

Abraço

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Caro Paulo,

É verdade. Mas a legislação pode ser revista, adaptada, alterada. os arquitectos através da sua Ordem podem emitir pareceres, etc.

Anónimo disse...

O melhor é deixar Lisboa abandonada.
Não fazer garagens embora seja obrigatório.
Não destruir os interiores quando são irrecuperáveis.
As lojas a venderem botões e com 3 velhos que nem caixa registadora têm.
Gostaria de saber quantos metros quadrados o autor deste post já reabilitou?
Ou é só conversa e contribuição para a cidade Zero.

Tomás

Anónimo disse...

Caro Tomás,
esse tipo de argumentação é falaciosa e de extrema má-fé. Nunca se defendeu aqui que não se recuperasse, mas como a palavra indica recuperar não é destruir. Aqui defende-se que se recupere criteriosamente, mantendo o património que a si, aparentemente, pouco lhe diz, mas que a pessoas civilizadas é sinónimo de cultura e respeito pela história e um investimento de futuro - ou acha que daqui a alguns anos, quando não restar nada de genuíno, os turistas vêm para ver objetos de cenário mal feito e com um aspeto barato e sem graça. Vêm aqui para cair na bebedeira, e nada mais.
Os metros reabilitados nada têm a ver com a legitimidade do autor ou outro interveniente neste espaço em exigir a preservação do património. Não sei se é jovem mas a sua mensagem é infantil e a sua estratégia argumentativa batida e os argumentos gastos e provados serem errados.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Agradeço ao anónimo das 2.58 o comentário. Poupa-me a reposta em grande medida.

Contudo, não posso deixar de reagir ao Sr. Tomás. Nunca reabilitei nenhum prédio. Tive o cuidado no meu, em obras que fiz, de manter todos os pormenores modernistas que ainda existiam no apartamento, evitei colocar marquises e afins.

Tendo mudado de casa, decidi dar o meu contributo, habitando um prédio menos mal renovado do que a maioria, tentando assim provar que é possível viver em prédios antigos no centro histórico, com interiores largamente preservados e com as comodidades da vida moderna.

Contribuo com o meu esforço, e de muitos outros que aqui escrevem, na organização e visitas do património Entre Séculos, criando assim um espaço de debate de ideias e de tentativa de arranjar soluções que não sejam, banalizar a cidade, optar pelo mais fácil, roubando-lhe a história e a alma.

Às vezes três botões têm mais valor e graça do que três condomínios heméticos, distantes, alheios a uma cidade que se quer aberta, rica no seu património, equilibrada nas escolhas que faz.

E já agora, o senhor o que é que faz por Lisboa?

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 2h58 e Caro Miguel, há aqui uma coisa que é essencial: A cidade tem de ser vivida. Mas uma cidade não é vivida se não tiver residentes.
Para ter residentes, a cidade tem de ter serviços (entre eles bares e restaurantes), casas com elevadores, e com garagem (há quem trabalhe com carro e tenha filhos de berço), jardins e lojas adequadas de quem não ficou encostado a uma renda antiga, mas alguém que inova e se aplica no seu negócio e traz movimento à cidade.

Respondendo à letra, eu já reabilitei mais de 12.000m2 de edificado histórico de Lisboa. qualquer coisa como 120 apartamentos. Sim e recuperei, não destrui o interior e edifiquei de novo. Mas apenas por uma razão, considero mais rentável o que eu faço e é o meu negócio.
Claro que meti elevadores.
Já abri uma fachada para uma garagem.
Substitui mais de 400 caixilhos em madeira podre por PVC com desenho idêntico.
Mas tenho outros "colegas" concorrentes que fazem o negócio de deitar abaixo e construir de novo. E é essencial que os hajam. Esse prédio da antiga fábrica era impossível adaptar para habitação sem aquelas alterações. IMPOSSIVEL. Portanto boa solução a de o destruir. Prefiro um prédio descaracterizado por dentro mas habitado com gente civilizada que uma fábrica abandonada cheia de drogados.
O Five star, só tenho a aplaudir o trabalho deles. Já entraram dentro de algum prédio deles??? É que eu já.
As garagens da Fernandes Tomás. Essencial para quem lá vive. Se não fosse assim se calhar os prédios estavam devolutos.

Quanto à questão do ser jovem ou não, posso-vos adiantar que tenho 30 anos.

cumprimentos,
Tomás

Filipe Melo Sousa disse...

Acho lamentável que alguns comentadores chamem a si o monopólio do "civismo, cultura e respeito" de acordo com a sua escolha pessoal e muito subjectiva de padrões estéticos.

Pergunto-me o que é um "prédio genuíno" de acordo com o sr anonimo. É um prédio do estilo e período que lhe agradam. E o que são turistas "sérios" e turistas "fúteis". E por que motivo beber (vinho, vodka ou cerveja, não sei qual o sr anónimo acha aceitável) é uma forma "pouco séria" de um turista se comportar quando vem a Lisboa.

Não sei se o sr anonimo é um fóssil da geração do 25 de abril com ares de pseudo-intelectual de esquerda, mas a sua mensagem é típica desse tipo de gente, e completamente gasta.

Anónimo disse...

Caro Tomás,

vamos lá, ponto por ponto:
sim, as cidades vivem de pessoas e estes alimentam os negócios num ciclo virtuoso. Mas continuo sem perceber o que tem isto a ver com não preservar património. É que em cidades como Paris e Amesterdão, entre mil outras, o que está criteriosamente preservado é mais caro, mais concorrido, o que atrai pessoas, bons negócios.
Em Lisboa temos este fenómeno de América do Sul, onde o pladur e o betão é mais procurado e assim transforma-se o que não é betão em betão!!!
Nada do que escreveu me ofereceu a sensação de estar a lidar com alguém que sabe o que está a fazer. Para reabilitar esses 12.000m2 eu pergunto-me que tipo de habilitações tem. Sabe alguma coisa sobre reabilitação? É que reabilitação não é construção. E quando refere que mudou não sei quantas caixilharias reforça a ideia que tenho de si: um curioso a brincar às reabilitações. Como a grande parte dos arquitetos, engenheiros, mestre de obras e trolhas desta cidade. Contam-se pelos dedos de uma mão de um trabalhador de serração quem sabe recuperar aos níveis internacionais. O Arq. João Appleton é um deles.
O que fez às cozinhas que encontrou: design minimalista, aposto. E as casas de banho? o mesmo tratamento das cozinhas.
Não, isto não faz de si alguém habilitado. Está longe disso.
Você mesmo o admitiu! Não destrói completamente os interiores porque não lhe é rentável. O que está aqui a fazer neste espaço, então, onde se discute como salvar a cidade de pessoas como você?

Rui disse...

Caro AMC, é escusado.

Como o próprio FMS diz:

Os mais aptos e os mais qualificadas emigram.
Ficam os pelintras, os menos preparados e qualificados, para brincar com o nosso património.

O que interessa é ser rentável.
Não é Tomás?

Anónimo disse...

"Mas apenas por uma razão, considero mais rentável o que eu faço e é o meu negócio.
Claro que meti elevadores.
Já abri uma fachada para uma garagem.
Substitui mais de 400 caixilhos em madeira podre por PVC com desenho idêntico."

Esta parte é a mais engraçada.

De um pseudo técnico que gosta de responder à letra e de partilhar connosco todas as suas competências na área de reabilitação e conservação de interiores que já fez em dezenas de edifícios, só se lembra de referir como suas pequenas glórias ( e de modo a comprovar as habilitações) não só a inserção de uma garagem e de alguns elevadores(pergunto-me se a segurança do sistema estrutural dos edifícios ficou assegurada?) assim como mais de 400 caixilhos em pvc que já colocou em vários vãos (vejam lá o orgulho com que o homem diz: PVC).

O melhor de tudo fica para o fim:

Só faz o que faz pelo facto de ser mais rentável.

Está a gozar connosco, não está?