02/07/2014

HALT!



Lisboa tem uma longa tradição no desbaratamento de património, fenómeno com grande expressão desde os anos 60; mas, mesmo que as oportunidades económicas trazidas com a entrada do país nas Comunidades Europeias tenham levado muitos portugueses a ganhar o gosto por viajar para o estrangeiro, seria de esperar que os exemplos de preservação de património que testemunharam fora inspirassem positivamente qualquer proprietário esclarecido e de bom gosto. E em consequência nos tivessemos aproximado dos padrões de exigência dos nossos parceiros continentais no que toca a viver e fazer cidade.
Nada mais oposto!
Assistimos, com este executivo, a uma fúria renovada em promover o “caterpilar”, o betão, o vidro espelhado e o pladur como solução para a cidade e as “vítimas” amontoam-se, não passando mais do que futuras imagens nos próximos volumes da “Lisboa Desaparecida”.
Podia ser diferente? É que a falta de recursos, as rendas baixas, o incómodo de ter de renovar, a vida moderna são argumentos intransponíveis (leia-se fáceis) na boca dos lisboetas.
Talvez seja mais fácil responder à pergunta se conhecermos um caso, não isolado sublinho veementemente, da cidade alemã de Görlitz.
Situada na Saxónia, ex-RDA, esta cidade apresenta números desencorajadores de desemprego e abandono por parte dos jovens, sendo uma das regiões germânicas que recebem ajudas comunitárias – sim, também as há na Alemanha.
É assim Görlitz:




Não, não há “photoshop” a pincelar verniz nestas imagens. É assim que uma cidade pobre faz para melhorar e potenciar o que tem de melhor: Restaura!
Onde estão as janelas de PVC? Os letreiros enormes a cobrir frentes de loja inteiras? Esplanadas pejadas de publicidade? Ar-condicionado nas fachadas? Acrescentos modernos nos interiores talvez? “Désaine” moderno, daquele que oferece bancos de jardim que são monólitos de pedra ou candeeiros palito?
Pois, aqui em Görlitz não há nada disso. Porque as pessoas não gostam, porque o património é um bem que se herda e passa-se aos que vêm a seguir, porque simplesmente não se faz.
Mas Görlitz é notícia e trago-a aqui por mais uma outra razão:

Postal de Época
Este edifício é um armazém comercial, como o foi o nosso saudoso Grandella ou Chiado. Foi construído antes da Primeira Grande Guerra e sobreviveu aos dois conflitos. Sobreviveu, ainda, à RDA que fez degradar muitos edifícios, cidades e vidas. Mas a lei do dinheiro veio ditar o seu encerramento depois da compra pela cadeia de armazéns Karstadt que faliu e foi “engolida” pela Hertie, que não avançou com os planos de o recuperar. E ficou fechado durante anos.
Imagem Atual
Ùltima Hora! Está a renascer!
Começaram as obras e espante-se: não vão ser destruídas, alteradas, acrescentadas nenhuma parte do edifício, que será recuperado e restaurado criteriosamente. Como vão sobreviver os lojistas sem os toques de autor que pautam qualquer intervenção em  património que sempre acontece por aqui, nesta cidade de Lisboa, que se diz capital europeia?
Porque é que eles não têm  sorte de ter arquitetos e designers de qualidade como nós; e um Vereador Salgado?

Imagens do interior no momento em que decorrem obras de restauro.
Imagens propriedade de Der Spiegel


Quando é que nos vamos convencer que o que estamos a fazer e a deixar fazer a esta cidade, cada vez mais nos olhos do mundo, nos traz vergonha - eu trabalho com estrangeiros, residentes ou não, e sei o que na verdade pensam de nós e de como nos portamos como cidadãos, apesar dos prémios fabricados que Lisboa tem conseguido – e, pior, oblitera as gerações vindoras de poderem ter orgulho na sua cidade com história.

11 comentários:

Anónimo disse...

Só de pensar no que andam a fazer ao edificado pombalino do nosso pobre Chiado - outrora a "capital de Lisboa" e do romantismo Português..

Jorge Pinto disse...

Görlitz é talvez a única excepção de uma cidade alemã,com alguma dimensão,que foi poupada às bombas aliadas. Isso, claro, não lhe retira o valor pela decisão de conservação desse património único e que se tem mostrado uma mais valia para a cidade em termos de turismo e de cenário para filmes.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Lisboa é das cidades europeias que conheço a que mais desbarata o seu patrimóno com o incentivo da CML, com a conivência da DGPC, com o silêncio alheado e, tantas vezes, ébrio de modernismo falhado da maior parte dos lisboetas

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Lisboa é das cidades europeias que conheço a que mais desbarata o seu patrimóno com o incentivo da CML, com a conivência da DGPC, com o silêncio alheado e, tantas vezes, ébrio de modernismo falhado da maior parte dos lisboetas

Anónimo disse...

Aqui no cantinho à beira-mar também se "reabilita".
Só que aqui, e infelizmente, a palavra "reabilitação" costuma ter outro significado: Promoção e banalização (intervenção após intervenção) do património existente, através da betonização integral de todo o edificado antigo.

Viva os pombalinos de betão e os seus interiores raquíticos e minimalistas!

http://casa.novodono.com/imovel/-/286B90FB-2BB6-46AF-A8E2-CE24FFEA3D85/


Viva os logradouros públicos e os respectivos acessos de zonas, ditas, "históricas". Espaços que mais parecem "sair" do parque expo:

http://postimg.org/image/h80hcmxs9/

http://postimg.org/image/kg4ypok21/

http://www.cm-lisboa.pt/uploads/pics/tt_address/lxi-2115-05.jpg


As fachadas simplórias também não escapam.
Sai um quarteirão Império à Byrne?

http://www.cm-lisboa.pt/uploads/pics/tt_address/lxi-2115-02.jpg


Centro histórico? Lol. Conta-me historias de Roma, Paris, Praga e Venize..

Condomínios de periferia. Isso sim!

Anónimo disse...

Não sei se sabem mas este edifício foi cenário para as filmagens do Budapeste Grand Hotel, ainda há pouco tempo nos cinemas.
Por favor salvem Lisboa! Isto não pode continuar!

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
A. M.C. disse...

O comentário eliminado deveu-se à duplicação da mensagem do anónimo das 12:43.

Anónimo disse...

Coitadinho do Woody Allen.
Sei de fonte próxima que ele bem andou pelas zonas mais nobres do Chiado à procura de vários lugares que lhe transmitissem aquela essência nostálgica que encontrou em locais como: Roma, Paris, Budapeste, Praga; de forma a filmar as cenas do seu próximo filme de espiões - encomendado pelo Costa - e que se passava durante a grande guerra.

Infelizmente os interiores dos palácios pombalinos (pseudo requalificados) que encontrou, até às zonas mais modernas ( sinistradas pelo grande incêndio e que foram requalificadas pelos grandes "deuses" da arquitectura portuguesa) não o convenceram.

Acho que a desilusão foi tanta que ao fim da tarde já se tinha metido no seu jacto privado.


Ó Costa, talvez o Taveira esteja interessado em rodar um novo filme
Já pensaste nisso? Quem sabe..

Anónimo disse...

a população da cidade é 55 mill, mais ou menos como guimarães. vamos comparar alhos com alhos....

A. M.C. disse...

Anónimo,

o que quer defender na realidade? Confesso que não entendo o que tem a ver o tamanho de uma cidade com a preservação criteriosa de património. Porventura Roma, Paris, Viena e muitas outras são pequenas ou menores que Lisboa?