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21/03/2008

Crimes consentidos





Sazonalmente, os discursos oficiais inflamam-se com teorias gerais sobre salvaguarda e preservação de património, a sua importância estratégica, a necessidade de ele ser vivido, etc., etc. Não raras vezes, confundem conceitos de intervenção, mas soa sempre bem falar de património, desde que, depois, ele não dê muito trabalho. É por isso que a prática continua a ser a melhor medida-padrão para avaliar da bondade do discurso.

Há várias semanas que o imóvel acima, situado bem no centro da cidade e abandonado há largos anos, se encontra sinalizado com fitas da Polícia Municipal e do Regimento de Sapadores Bombeiros, indicando risco de derrocada e/ou, no caso também, de queda dos materais de contenção montados na fachada. Emparedado em parte, o edifício mostra bem o que pretende efectivamente dele o proprietário: no último piso, a toda a linha, lá está a clássica janela deixada aberta ou com vidros partidos que, conjugada com as telhas fora do lugar, tanto tem feito pela renovação da cidade.

Quando as Avenidas Novas nasceram, o nome que lhes foi dado não surgiu apenas porque elas eram “novas”. Surgiu por contraposição à Avenida Velha, do Passeio Público galante e cortês que mais tarde daria origem à Avenida da Liberdade. Chamar-lhe Avenida Velha significava então um reconhecimento da sua nobreza – nobreza que morreu nos nossos dias, no exacto momento em que não se soube respeitá-la como ela era. Negando a evidência, os discursos oficiais mantêm que a Avenida da Liberdade é a mais nobre artéria da capital. É, pois, com a maior das naturalidades que o seu n.º 238, com fachada de tardoz virada para a Rua Rodrigues Sampaio, 91 (última imagem), está hoje assim.

9 comentários:

daniel disse...

uma vergonha

Filipe Melo Sousa disse...

o proprietário não deixaria obviamente a janela aberta e as telhas fora do lugar so fosse livre de cobrar uma renda

Arq. Luís Marques da silva disse...

É de facto um crime contra o património.
Devemos, enquanto cidadãos, lutar para que situações destas não aconteçam.

Anónimo disse...

Os nossos governantes perdem tempo a classificar o cinema quarteto, quando afinal existe legislação para obras coercivas, e neste caso justificava.
Não se compreende porque razão os promotores não investem em edificios de qualidade com tradição e historia.
Ignorância!

Filipe Melo Sousa disse...

Não se compreende porque razão os promotores não investem em edificios de qualidade com tradição e historia.
Ignorância!


não se percebe porque o anónimo não se faz promotor. sofrerá também de analfabetismo económico?

Anónimo disse...

Caro Filipe Sousa,


Quando diz "o proprietário não deixaria obviamente a janela aberta e as telhas fora do lugar so fosse livre de cobrar uma renda" é pura demagogia. Aliás não vivendo lá ninguém pode o proprietário (depois de recuperar, claro) alugar ou vender-se andares.

Sei do que falo: tenho 3 prédios em Lisboa (e 2 em Aveiro) que durante anos e anos davam prejuízo e chatices várias. Quando houve oportunidade (leia-se casas vagas) investi e aluguei andares e outros vendi. Uma alternativa seria deixar apodrecer décadas e realizar mais valias...e talvez não beneficiasse em vida.

Ainda tenho algumas rendas antigas, mas já se conseguiu melhorar não só a qualidade dos prédios (obviamente só fazia as obras mínimas) mas também os meus rendimentos.

Anónimo disse...

esqueci-me de assinar: João Silva Marques

Filipe Melo Sousa disse...

Caro João Silva Marques,

você não está a gerir o patrimonio do modo que lhe traria mais proveito. É, claro livre de agir de acordo com a sua consciência. Faço-lhe notar que tem sido lesado devido às rendas baixas. No seu lugar não teria qualquer tipo de contemplação. Pratique o bem quando possível, mas o mal sempre que necessário.

Em última instância estará sempre a agir em nome do seu ego, praticando a maior de todas as virtudes. Não o conhecendo pessoalmente, pense apenas no seguinte: alguém como eu interessado em incutir egoismo alheio não pode estar de forma alguma desprovido de princípios.

Anónimo disse...

Caro Filipe,

Não percebo totalmente a ironia do seu texto...

Perante o exemplo referi um caso em que o investimento compensa, tratando-se de melhor opção que o abandono. Aliás relacionar o problema do abandono de casas com rendas antigas pode ser absurdo, na medida em que se as casas estão abandonadas podem ser recuperadas e alvo de mais valias (pela venda ou aluguer).

No meu caso quando diz que "não está a gerir o patrimonio do modo que lhe traria mais proveito" está a falar sem conhecimento de causa, na medida em que nos últimos 15 anos (apesar de algumas alienações) consegui rentabilizar algo que dava mais chatices que rendimento.

Obviamente poderia esperar que os prédios caíssem, mas nesse caso além de poder ser responsabilizado pela morte de pessoas, as mais valias seriam feitas pelos meus herdeiros, e daí não teria benefício nenhum.

Obviamente sou prejudicado porque tenho rendas antigas (um exemplo tenho t4 alugados a 30 e a 800 euros), mas é algo que a seu tempo será resolvido. No meu caso foi a possibilidade de ficar com andares vagos que despoletou a inversão da chatice...ou seja o predio da foto poderia sofrer o mesmo caminho...

João SIlva Marques