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15/03/2008

Jardim Botânico.....


As ideias para a recuperação do Jardim que por ai se vão lançando, são muito bonitas, mas atenção, pois a cidade continua a ser a mesma. Porque.....em que estado é que estão os jardins (abertos) de Lisboa hoje? Abandalhados, vandalizados e, com graves problemas de segurança. Soa muito bem, mas pode terminar em que poucos se atrevam a descer por o jardim abaixo, graffiti, vandalismo, imundice e, um subsequente desleixo do espaço. Esperemos que o Jardim Botânico seja devidamente recuperado, aberto ao público, mas com entrada vigiada e paga, mediante uma quantia simbólica. Lisboa não necessita de mais jardins desleixados e inseguros. Nesse caso, deixem o Botânico estar como ele está, pois a sua sombra e tranquilidade sempre foram as melhores da cidade.

15 comentários:

Anónimo disse...

Concordo, em parte. Seria um erro tentar transformar o Jardim Botanico num jardim como outro qualquer da cidade. Apesar de ser indiscutivel a urgencia do restauro e modernizacao de alguns aspectos do JB (impensavel que nao exista uma cafetaria, por exemplo), sera tambem necessario respeitar o espirito do lugar, o "genius loci" do JB. Caso contrario podemos acabar com um novo problema.

Miguel Drummond de Castro disse...

Caro Anónimo,

Vejo com gosto que sente como tantos de nós o "genius loci" do Jardim, e que também tem a percepção de que é um jardim Único, de recolhimento, de estudo, de observação precisamente da fantástica variedade de espécimes que só ali se encontram. Nunca nos podemos esquecer que é um Jardim justamente Botânico, ou seja, nunca poderá ser tratado como outro jardim. Tem objectivos diferentes.
Torná-lo num ponto fácil de passagem,entre a rua da Escola Politécnica ou do Salitre e o Parque Mayer para quem depois de vistar os Museus e comer num restaurante com o Jardim por cenário e a seguir "desce o Jardim entre árvores," e segue para os teatros como o quer num devaneio hedonista a APC é torná-lo numa passadeira simpática e distraída e não mais do que isso.

No artigo da Alexandra Prado Coelho é notável que não se aluda nem uma vez ao carácter excepcional do Jardim. Não se destaca nem uma só sequer das centenas de espécimes que ali vivem tranquilamente e que são amigas de longa data de muitos de nós que ainda mantem um contacto afectivo e real com a natureza.

A ideia de rasgar o jardim com percursos pedonais é absurda. Rasgar é um verbo de mutilação, uma metáfora agressiva. Lisboa já foi por demais "rasgada". A verdade é que o Jardim está bem como está (há coisas que não precisam de ser "mudadas", a paranóia de querer mudar tudo é isso mesmo: uma paranóia). O Jardim precisa é de ser cuidado, e de ser regado pois a Câmara que tem dinheiro (ou teve) para tanta intervenção parola e disparatada não tem dinheiro para regar um Jardim extraordinário em Portugal e no mundo.

Resta-me dizer que não concordo nada com a ideia de uma cafetaria dentro do jardim. Cafés, e óptimos com carisma é o que não falta ali à roda. Tem a Císter, por exemplo a dois passos. E andando uns minutos mais tem cafés simpáticos no Rato ou no Principe Real. Para quê mais um? Para quê andarmos a fazer mais uma esplanada? O Jardim Botânico alia duas ideias fortes: a perspectiva romântica e a perspectiva científica. Podia-se portanto definir como o único Jardim "goethiano" de Lisboa que alia de forma sublime essas duas qualidades. Ou seja, Jardim de arrebatamento para a alma, e de reflexão para o observador científico da Natureza: justamente como o quis a Revolução Romântica cujo período de acção continua.

O Jardim, além disso, o que precisava, de facto, é de disponibilzar um bom livro que descrevesse os espécimes (o seu historial), com gravuras e fotos. E precisaria de mais uns quantos jardineiros para cuidar dele e o manter limpo, e recuperar com energia os viveiros que estou certo podiam ser uma boa fonte de lucro.

A ideia de o tornar num corredor de passagem sabendo como os apressados e distraídos cidadãos tratam os solos é a garantia de o ter sujo em menos do que nada. A ideia de hiperacessibilidade, advogada pela APC, não é nada boa. Na Aústria para ver os jardins do Imperador tem que se deixar os automóveis a cerca de 2 ou 3 km de distância.

Facilitar os acessos é uma política errada, embora seja a filosofia dominante em Portugal. Ad astra per ardua!

Também concordo que se deva pagar para entrar.

O que eu acho é que o Jardim Botânico tem dado a muitos de nós aquela sensação de "gardens in which we feel secure" tão rara em Lisboa, onde os Jardins tão cedo são vandalizados ou banalizados por uma onda democratóide sem visão nem senso algum. Ou transformados em extensões de creches - com um equipamento crasso de plástico e sub-campos de futebol.

O pobríssimo texto da Alexandra Prado Coelho que desata a propôr
soluções radicais próprias de uma semiculta, logo a seguir à sua primeira visita ao jardim é extraordinário! A senhora não conhecia de todo o Jardim e logo a partir da sua primeira visita desata a querer transformá-lo, com aquele à vontade pós-modernista, aderindo com um simplismo desarmante ao agressor que se propõe intervir no Jardim : os Aires Mateus que não percebem ráspias de escadas, nem do que sejam edifícios integrados (perma-architecture)como se vê tanto no Centro de Artes de Sines como no horroroso edificio da nova Pousada de São Tiago de Cacém, um rectângulo cinza, monólito pesado, sem razão nem rima que destoa por completo na paisagem, não promovendo nenhum diálogo com ela, antes pelo contrário funcionando como um despótica excrescência, um verdadeiro bostik visual, que dói ver.

Ainda no artigo da APC refere-se o Ginásio da Faculdade de Ciências com sendo destinado aos alunos da Faculdade. Nada de mais incorrecto. As instalações estão alugadas para a prática de diversas artes marciais (Tai-Chi, Aikido), de Yoga, etc. São frequentadas por todo o tipo de pessoas, incluindo alguns alunos da Fac. de Ciências.

Resta que tenho pena que o Prof. Catarino que tanto sabe de Botânica nao tenha sido aproveitado pela APC, que está interessada apenas na hiperacessibilidade do Jardim, no restaurante e cafetaria, ou seja na banalização daquela zona de que nem por sombras pressentiu a existência do "genius loci" como disse com toda a pertinência o Senhor Anónimo.

Anónimo disse...

Nao podemos ser tao espartanos. Nem mais papistas que o Papa. Sou um apaixonado por jardins, especialmente Jardins Botânicos, mas o Jardim Botânico de Lisboa é o unico que conheco sem qualquer cafetaria. Nao pode ser. Eu preferia tomar o meu cafe, beber o meu sumo de laranja ou simplesmente uma agua mineral numa simpatica cafetaria dentro do Jardim Botânico do que fora dele. Evidentemente que nao se pode abrir uma cafetaria qualquer dentro de um Jardim Botânico. Tera de ser algo responsavel, adequado ao perfil unico do Jardim Botânico. Todos os Jardins Botânicos que visitei por todo o mundo oferecem aos seus visitantes a possibilidade de se sentarem numa cafetaria. Penso ser uma questao de puro bom senso, da arte de saber receber.

Concordo absolutamente com a indesculpavel ausencia de um bom guia das especies do jardim. Mais uma prova, no meu entender, da falta de interesse e de investimento da parte da Universidade de Lisboa.

Anónimo disse...

Todos os jardins do mundo oferecem a possibilidade de os visitantes se sentarem numa cafetaria?
Errado. Conheço muito bem os jardins da Irlanda. E não falo necessariamente dos das cidades (onde não há qualquer razão para os jardins terem uma cafetaria, porque é certo e sabido que haverá uma por perto) mas sim os jardins, que os há nesse País, no campo, inseridos em parques. Aqui (onde não há uma rua com cafetarias por perto) o que há, são cafetarias e instalações sanitárias À ENTRADA dos mesmos, ao lado das bilheteiras. Estes centros de apoio vendem também livros, etc, sobre os próprios jardins, e todo o produto deste comércio reverte para o fundo de preservação dos jardins.
Querer cafetarias no Jardim Botânico é a mesma lógica das pipocas nos cinemas, do jantar sobre o tabuleiro em frente da TV, do bar de praia com música e ecrans em frente das cadeiras de lona coloridas. É ser desalmado.
Ir "estar" num jardim deve ser ir procurar um estado de alma, que me parece o exacto oposto do consumo do bolicau.
Façam-se petições.Urgentemente, para que se salve o JB.
Que este JB seja o que era!

Miguel Drummond de Castro disse...

Caro Anon,

Terei que discordar consigo nesse ponto, embora admitindo que sendo apreciador de bom café - de balão, ou turco, sou um pouco espartano.

Quanto à arte de bem receber, penso que o Jardim nos recebe muito bem. O genius Loci pisca-nos o olho,os pássaros sentem a nossa presença, os secretos "Power places" do Jardim a pouco e pouco chamam-nos e há muito lugar para ficar sentado.

Mas não sendo fundamentalista talvez, se como diz fosse uma casa de chá ou uma casa de café feita com bom gosto, no lugar próprio, não fosse má ideia. Tenho é medo do nome cafetaria. Nunca vi nenhuma boa.

Os melhores cumprimentos,

Miguel Drummond de Castro

Anónimo disse...

Estamos de acordo. Que seja uma elegante "casa de chá" ou "casa de café". Feita com bom gosto e no lugar certo seria concerteza uma boa ideia para o JB. Claro que ninguem aqui quer instalar no JB um antro de consumo de bolicau e Coca-Cola!

Anónimo disse...

Com certeza que não. Com certeza, sr. anónimo das 4.41PM

daniel disse...

Tenho de discordar. O desleixo de jardins exteriores não pode ser fundamento para não abrir o jardim botânico.

A passagem do jardim entre o príncipe real e o parque mayer é uma ecelente ideia de ligação entre duas partes da cidade, abre novas vistas e valoriza e dá a conhecer o jardim.

É errado pensar que, necessariamente, irá destruir o jardim. Não será concerteza uma estrada de massas que irá utlizar aquele percurso.

Miguel Drummond de Castro disse...

Caro Daniel:

Parte do pressuposto errado da Alexandra Prado Coelho de que o jardim não é conhecido. É impensável alguém dizer-se lisboeta e não conhecer esse Jardim e de não o ter na maior estima e consideração há muitos anos.

Acresce que se pode perfeitamente ir do Principe Real ao Parque Mayer com as vias de acesso actuais - para quê "rasgar" o Jardim com "percursos pedonais" feitos por uns arquitectos que não fazem a menor ideia do que seja andar a pé? Suba as escadas do Centro de Artes em Sines para confirmar o que lhe digo, porque não estou a falar no ar e sem fundamento. Os irmãos Mateus não sabem uma coisa que o meu pedreiro analfabeto, o mestre ASfredo Sobral, sabe: a escala do pé.

Deviam passar uns anos nos Himalaias, para ver se arejavam a marcha e as ideias. E o mesmo deveria fazer o presidente da edilidade que está com a gordura de quem só anda em carro de vidro fumado.

Por outro lado, dilacerar a paisagem é o que se tem feito continuamente em nome da acessibilidade e da linha recta, directa, da imediatidade.

A ideia pseudo moderna da acessibilidade extremamente acessível e fácil não é sensual/sensorial/cognitiva, é meramente pagmática/utilitária/comercial.

Discordo da sua ideia de que o jardim está fechado. Não, de todo, está é belamente oculto como "les dames sans merci" e que são belas justamente porque guardam o mistério.

Arq. Luís Marques da silva disse...

Tenho que concordar em absoluto que será perigoso, do ponto de vista da preservação física e, da essência daquilo que é um jardim botânico, o seu atravessamento descontrolado pelos peões; transformar este espaço numa artéria pedonal, é descaracterizar por completo a sua essência.
Um jardim botânico, pressupõe estudo e observação, calma e contemplação.
O vandalismo urbano,também é para mim, motivo de preocupação; não vejo com bons olhos, a possibilidade daquele espaço, seguir os passos de quase todos os "jardins" de Lisboa.
Veremos o desfecho de mais este "estudo" pseudo moderno.

Miguel Drummond de Castro disse...

O JB é um museu botânico ao vivo, não um corredor simpático de passagem, nem mais um jardim para encher de esplanadas. E se fizessem percursos pedonais a meio do Museu de Arte Antiga sob pretexto que facilita o acesso a Alcântara?

A promiscuidade de funções de um espaço, a hiperpolivalência funcional, se quiserem, degrada, banaliza e desvaloriza esse espaço imediatamente e quem perde é a cidade inteira.
A riqueza de uma cidade, por outro lado, provem da sua diversidade e das suas "assimetrias". Espaços urbanos bem diferenciados são o contrário de espaços globalizados. Uma cidade uniforme é uma seca, uma pluriforme é uma surpresa e um convite à redescoberta.
Fórmulas únicas, reducionistas, como as que se tem praticado em Lisboa, não dão conta da originalidade de Lisboa que tem que aprender a saber viver com cronos e com uma diversidade de espaços de todos os tipos, uns públicos, abertos, exuberantes de passagens, outros mais intimistas: o tempo não é só futuro despótico, é uma sucessão de estratos. Os espaços devem ser plurais, diferenciados e não homogéneos e encaixados uns nos outros como soluções fáceis de continuidade. Uma cidade não tem que ser fácilnem sequer acessível: não é um computador que se abre com um click. Tem que oferecer resistência, dificuldade, desafio, aventura e não um cruzeiro com ar condicionado, piscina e cafetaria. Um cidadão de Lisboa não quer ser um turista na sua própria cidade! Não quer participar dessas leituras bulímicas, umas rapidinhas culturais industrializadas e sem carácter.
Por outro lado, as cidades que declaram guerra à sua história, e a apagam, banalizam~se. A venezualização de Lisboa é um susto, está a torná-la numa metrópole pindérica, uma coisa entre o neo turco e o modelo sul-americano de betonite. Ou seja mais um nada global. Por isso, convem apreciar e valorizar o que é diferente. O JB é diferente tal como está ou como deveria estar: tratado e regado, o lago com água, as áleas limpas, as árvores cuidadas ... Há coisas que não precisam de estar sempre a mudar, sobretudo com esse radicalismo pequeno burguês de querer mudar tudo e "deixar marca".

Arq. Luís Marques da silva disse...

..."tal como impulso canídeo, de constante marcação compulsiva de território"...

Arq. Luís Marques da silva disse...

Caro Miguel Drummond de Castro, parece-me uma pessoa de raro e fino entendimento intelectual e um interessado amante de Lisboa.
Não posso, por isso, deixar de lhe pedir para, se assim o entender, assinar a petição online que está em curso, numa tentativa de travar a construção de um edifício no Largo do Rato, á custa da destruição da centenária Associação Escolar de S.Mamede.

Bem haja.
Luis Marques da Silva

Anónimo disse...

Penso que o jardim botânico deve estar aberto a todos - esse deve ser o seu cerne enquanto jardim de uma universidade que se quer aberta para a comunidade, para a cidade, para Portugal e para o mundo em geral. Ter uma cafetaria, um restraurante, uma loja, mais percursos e mais pessoas parece ser apenas natural para o jardim botânico do futuro. Aquilo que lá está hoje em dia envergonha Lisboa. Estamos entretidos numa guerra interminável de palavras e de falta de gestão pura e simples. Quem sofre: o Jardim e a cidade!

Arq. Luís Marques da silva disse...

Que o jardim seja aberto aos cidadãos, não me parece que seja o pômo da discórdia.
O problema é o escancará-lo:
Escancará-lo ás massas, com a sua inevitável destruição.
Aqui, não se trata de um jardim ordinário, mas sim de um jardim que, entre outros destinos, possui o de servir para estudo, logo necessita de ser protegido e não devassado.
Os museus, também devem ser abertos e dinâmicos e não estáticos e sizudos; mas não podem, por essa lógica, ser abusados, sob risco do seu acervo, ser irremediávelmente destruído.
É a minha opinião sobre o assunto.