19/03/2008

A propósito da Baixa

No seguimento da decisão da CML em avançar com um Plano de Pormenor para a Baixa Pombalina (‘Baixa-Chiado’) e, a par disso, suspender parcialmente os artigos 38º a 40º do regulamento do PDM, é preciso estar alerta para o perigo de, a cobro de boas intenções, se estar a propiciar aos promotores privados a oportunidade de avançarem com construções e demolições em zonas onde até agora tal tem sido proibido, tout court, mesmo sabendo, como se sabe, que os proprietários (públicos e privados) deixam os prédios a cair para apresentarem pedidos de alterações profundas com o argumento que o prédio está em riscos de cair, quando não, como em dois prédios carismáticos da Rua Ivens, apresentam pedidos de demolições.

Voltando atrás: perigo duplo se tivermos em conta que toda e qualquer candidatura à UNESCO será ferida de morte, uma vez violados os pressupostos de que ainda resta algo de Pombal na Baixa de Lisboa para além do pastiche, perdida a herança pombalina em adulterações às estruturas interiores e à traça dos seus edifícios, adulteração de materiais aquando de ‘reabilitações’, etc., etc.

Isso, e uma estranha transparência na justificação da CML em querer suspender os referidos artigos: instalação da colecção Capelo no BNU da Rua do Ouro; demolição dos anexos ilegais do Quartel do Carmo; acesso pedonal mecânico ao Castelo de São Jorge, desde a Baixa (até aqui parece haver um quê de confusão, sobre que solução e onde); e a instalação de um museu do Banco de Portugal na Igreja de São Julião, vulgo 'Nossa Senhora dos Mercedes' (que até já está em obras...). Alguém acredita que seja preciso suspender-se aqueles artigos para se avançar com estes projectos 'estruturantes'?

Mais do que um plano de pormenor, mais do que relatórios e comissariados, do que a Baixa Pombalina precisa é de um Plano de Salvaguarda de Emergência. Tudo o mais é de um evidente perda de tempo (deliberada?). Do que a Baixa precisa, entre outras coisas, é que a CML faça o seu papel, e depressa. Onde? Pode começar por AQUI.

São coisas simples como:

- Disciplinar o horário de cargas e descargas (que devem ser feitas de madrugada e não durante a manhã!);
- Disciplinar a recolha do lixo (é escandalosa a situação no Chiado, com lixo abandonado, recolha feita durante o dia, falta de ecopontos, etc.);
- Reforçar a iluminação pública;
- Manter em boas condições o mobiliário urbano;
- Impor à Carris que disponibilize para o eixo ‘Avenida da Liberdade-Restauradores-Rossio-Rua do Ouro-Terreiro do Paço-Rua da Prata-Rua da Madalena’ autocarros não poluente;
- Impor à Carris a reabertura da linha de eléctrico 24, desde o Cais do Sodré às Amoreiras, com extensão ao Largo do Carmo;
- ‘Pedonalizar’ o Largo Rafael Bordalo Pinheiro;
- Construir o prometido acesso pedonal desde a Rua Garrett ao Largo do Carmo (projecto de Siza Vieira);
- Juntar esforços com o Metro no sentido de abrir a projectada boca de Metro na Rua Ivens;
- Lançar concurso público para acesso mecânico (escadas rolantes) ao Castelo de São Jorge, desde a Rua dos Fanqueiros, por dentro dos prédios camarários, conforme ideia do Arq. Alves Coelho - a ideia do funicular implica demolições na malha do bairro);
- Avançar, desde já, com a adaptação a silo automóvel do Mercado de Chão do Loureiro;
- Avançar, desde já, com um plano de salvaguarda, efectiva, para os prédios abrangidos pela zona de intervenção do Plano de Pormenor, protegendo não só os elementos arquitectónicos e genuínos, de interiores e exteriores, ou evitando demolições iminentes (ex. Rua Ivens), como as lojas de tradição, revigorando-as e renovando-as com um ‘plano de emergência’, a começar pelas retrosarias da Rua da Conceição;
- Avançar com a reabilitação, de facto, dos edifícios e lojas propriedade da CML, submetendo-os ao mercado de arrendamento (jovem e não jovem), JÁ!
- Apostar na reabertura de salas de espectáculo abandonadas (ex. Odéon, Olímpia), abrir estúdios de cinema, incutir outro tipo de programação a salas como o Animatógrafo ou o Cine-Paraíso.

Antes que seja tarde!

Tudo o mais é fogo-de-vista, à espera de eleições, na CML e na AML.

8 comentários:

Pedro Homem de Gouveia, Arq. disse...

Caro Paulo,

Uma nota apenas: as escadas rolantes de ligação ao Castelo não serão poderão ser utilizadas por pessoas em cadeiras de rodas, ou com carrinhos de bébé, ou idosos com dificuldades motoras (com andarilhos, muletas ou simplesmente movimentos mais lentos ou problemas de euqilíbrio).

Não defendo um elevador com o impacto daquele que foi proposto pelo João Soares em 2001, e sei que um funicular teria um impacto forte na malha urbana.

Não deixo de lembrar que o impacto das escadas rolantes não será, de todo, nulo.

E sendo impossível encontrar uma solução com impacto visual nulo, então ao menos que se encontre uma solução que funcione e que sirva de facto os utilizadores reais (que não são só os turistas, como é óbvio). Não será o caso das escadas rolantes.

Há soluções implementadas em várias cidades que enfrentaram o mesmo desafio - basta procurar.

um abraço

Tiago R. disse...

Pois eu acho que, apesar do elevado impacto visual, o elevador que foi proposto por João Soares era interessante.

Por um lado, pelos benefícios de mobilidade que ía trazer, por outro, completando a simetria com o elevador de Santa Justa. Agradava-me a ideia da justaposição do elevador antigo e do elevador moderno.

E era definitivamente mais barato, mais simples e mais fiável do que escadas ou passadeiras mecânicas, que vão estar cronicamente avariadas...

Gonçalo Cornelio da Silva disse...

Não! Lançar concurso público para acesso mecânico (escadas rolantes) ao Castelo de São Jorge, desde a Rua dos Fanqueiros, por dentro dos prédios camarários.

Não, não e não! Porra!
Se não sabem o que fazer não estraguem, deixem que as próximas gerações tratam do assunto, cambada de incompetentes!

Os bairros populares, são feitos de gente! E os prédios municipais, devem ser recuperados, e constituir bolsas de habitação para realojar quando há obras na zona ou realojar pessoa, ou alugar por X anos a jovens, ou para habitação social.
É fundamental não permitir que estas zonas se desenvolvam somente com aluguer de habitação de luxo ou de estrangeiros.
Mais, estas populações vivem de um pequeno comercio local, levar as pessoas até ao alto sem proporcionar o passeio é desvirtuar o centro historico e prejudicar os seus habitantes.
Mas que raio de ideia de levar as pessoas ao castelo de São Jorge, afinal nao é uma peça de arquitectura extraordinaria, além de que foi recuperado no estado novo com ideias prefeitamente ultrapassadas. Mas que imcompetência.
Copiem o que está bem e parem de inventar, pois à conta disso temos um espaço público caótico e equipamentos caros de manter que se deterioram rapidamente. A manutenção deste tipo de equipamento é elevada, vai criar situações anormais, gastem o nosso dinheiro a manter o que temos, e que já é muito bom.
Seria preferivel enviar meia dúzia passear por centros historicos pela europa para ver o que fazem a nível da sinalização equipamento publico, passeios, etc.
Vão aqui ao lado a Espanha!
Copiem o que está certo! Afinal somos os ultimos em tudo e em vez de usarmos a experiencia de outros estamos sempre a tentar inventar a roda!

Anónimo disse...

As escadas rolantes poderão ter um impacte muito negativo na encosta do Castelo. Primeiro porque são estruturas imóveis metálicas de grande porte que, irão romper e desfigurar a cidade histórica. Do ponto de vista estético acho esta ideia totalmente alienada. Segundo porque irão a mesmas funcionar ao ar livre....em Lisboa! Chuvas encosta abaixo, lixo, graffiti, vandalismo, avarias, etc. Pode parecer uma atitude pessimista....mas, recordo-me de umas fotografias de umas escadas rolantes em Alcântara, com poucos metros, totalmente imundas....e avariadas. Ora no caminho do Castelo estamos a falar de lances muito maiores. Terá a CML recursos e, vontade de uma manutenção diária deste equipamento?
Depois fala-se dos acessos ao Castelo. Bem....talvez seria bom recordar, que os melhores Castelos desta época, eram os de péssimo acesso. Não vejo tão pouco, do ponto de vista de quem visita a cidade, quais sejam as vantagens de ser facilmente transportado até ao topo da colina. A visita ao Castelo é, também romper por essas ruas encosta acima. Um acesso rápido e confortável resolve-se facilmente com uma carreira miniautocarro, que poderia tanto servir os habitantes, como os turistas. Continuamos na treta da “acessibilidade” e banalização da cidade de Lisboa. Um dia é o Jardim Botânico, no outro a zona do Castelo. A cidade histórica necessita de limpeza, edifícios habitados e tratados, reboco e tinta de cal, caixilhos e portas de madeira, passeios bem calcetados, canários a cantar, etc. Estruturas “inox”.......não obrigado

JA

Anónimo disse...

Óbvio que não estou a par do projecto na sua totalidade, pois parece que parte destas escadas seriam feitas dentro de edifícios existentes ????
...e já agora, também um pequeno lance de escadas rolantes muralha do Castelo adentro, para facilitar ainda mais o acesso? Acho a ideia ainda pior do que as escadas ao ar livre. Simplesmente execrável!


JA

Pedro Homem de Gouveia, Arq. disse...

"Afinal somos os ultimos em tudo e em vez de usarmos a experiencia de outros estamos sempre a tentar inventar a roda!"

Nem mais. Até causa aflição.

"...os melhores Castelos desta época, eram os de péssimo acesso. Não vejo tão pouco, do ponto de vista de quem visita a cidade, quais sejam as vantagens de ser facilmente transportado até ao topo da colina."

Interessará a alguns (e para isso há soluções bem mais rudimentares, como a carreira de miniautocarro), e prejudicará a experiência de muitos outros (o castelo passará à categoria de património fast-food...).

"Estar" no castelo é um terço da experiência - um terço é subir ao castelo, o outro terço é descer para o rio. Quem não compreende isto não percebe nada.

"Continuamos na treta da “acessibilidade” e banalização da cidade de Lisboa".

Concordo para muitos casos. Faço contudo uma observação: a acessibilidade de que comecei por falar é a acessibilidade das soluções. As necessidades das pessoas com mobilidade condicionada não "ditam" nenhum tipo de solução. Melhor faria um miniautocarro acessível (que os há), por exemplo, do que as famigeradas escadas rolantes. E basta (lá está, novamente) olhar para o que se faz lá fora para perceber porquê.

Anónimo disse...

Tem razão.....vamos discutir acessibilidades para deficientes, doentes e idosos. E carreiras de miniautocarro a par com outras soluções praticadas na Europa funcionam muito bem...e seriam igualmente aplicáveis na nossa cidade.


JA

Arq. Luís Marques da silva disse...

Escadas rolantes pela encosta do Castelo? Claro que sim!
E "funiculares" ou "forniculares" e "elevadores" e "teleféricos" e tudo o mais que seja digno de um centro histórico, tudo como quiserem!
E, para quando chegarem ao topo da encosta, bilhetes de volta pelas pistas de um slide splash ou de rapel, a acabar no Terreiro do Paço.
E Coca Colas e muitas pipocas, muitas mesmo. E barracas de diversôes; e de cachoros quentes, com o brazão da cidade, com os corvos a depenicarem uma salsicha...
Os horriveis santinhos da Sé, deverão também ser devidamente "restaurados" por outros; de plástico luminuscente de preferência.
Ah,não se esqueçam da cereja em cima do bolo: Uma colorida e luminosa roda gigante, dentro das muralhas do Castelo, para lhe emprestar um pouco mais de dignidade!
Que lindo...