14/03/2008

Descendo pelo Jardim Botânico até ao Parque Mayer



In Público (14/3/2008)
Alexandra Prado Coelho (texto), Miguel Madeira (fotos)

Estamos habituados a ver o Jardim Botânico como um obstáculo no meio da cidade, que tem que ser contornado. Os novos projectos para o Parque Mayer querem mudar isso. No futuro poderemos visitar os Museus da Politécnica, almoçar no jardim e descer pelo meio do verde até aos teatros do Parque.

Quem desce a Rua do Salitre ou quem sobe a Rua da Alegria, em Lisboa, não pensa, normalmente, no Jardim Botânico. O Jardim Botânico não é aquele que fica lá em cima, junto dos Museus de Ciência e de História Natural, na Rua da Escola Politécnica? Sim, mas fica também ali mesmo ao lado - se se pudesse abrir uma passagem por entre os prédios na Rua do Salitre ou na da Alegria, ia-se dar ao muro do jardim. E é isso mesmo que vários arquitectos se lembraram de fazer.
Pela primeira vez, a tão falada recuperação do Parque Mayer é muito mais do que isso. Por iniciativa da Câmara de Lisboa e da Universidade de Lisboa, proprietária dos Museus da Politécnica (Museu de Ciência, Museu Nacional de História Natural e Jardim Botânico), foi lançado um concurso de ideias para toda a zona que vem da Rua da Escola Politécnica até ao Parque Mayer e cujo coração é precisamente o Jardim.
A primeira fase do concurso já foi concluída e há cinco projectos vencedores - Aires Mateus (1º lugar), ARX Portugal (2º), Vão Arquitectos Associados (3º) Souto Moura Arquitectos (4º) e Gonçalo Byrne (5º). Está aberta a discussão pública, e em Agosto a Câmara espera poder apreciar os planos de pormenor.
O P2 pediu ao professor Fernando Catarino, 75 anos, e que durante décadas foi director do Jardim Botânico, uma visita guiada por este espaço no centro de Lisboa que é muito mais contornado pelos lisboetas do que visitado por eles. E que em décadas de uma luta pela sobrevivência e contra a falta de dinheiro se foi instalando numa espécie de decadência romântica cheia de charme.
Entramos, pela única entrada aberta para o jardim, ao lado dos museus, e Catarino começa a história pelo princípio, recuando 400 anos, até ao tempo em que existia ali o noviciado jesuíta da Cotovia. "Este quadrado", aponta em frente, "quase com as dimensões que tem agora, era um horto botânico desde há uns 380 anos, quando os jesuítas fizeram aqui o seu primeiro colégio, onde formavam padres, mas também administrativos para o Brasil e as colónias".
Depois, em 1761, por iniciativa de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal, foi criado o Colégio dos Nobres, para dar formação pré-universitária aos jovens aristocratas. "Foi um desastre completo", ri-se o professor, "porque os filhos dos nobres saltavam as vedações e iam para o Bairro Alto" (que já era, como hoje, um centro de vida nocturna).
É desse tempo o picadeiro - passada a entrada viramos à esquerda e lá está, meio escondido entre outras construções. Todos os projectos apresentados ao concurso de ideias propõem a reabilitação deste picadeiro, que tem um tecto magnífico e que nos últimos anos foi usado como ginásio pelos estudantes da Faculdade de Ciências. (antecipando-se às propostas, inaugurou ontem no picadeiro a exposição Leonardo da Vinci - o Génio). "O picadeiro foi muito mal tratado", conta Catarino. "Tem uma escadaria com dois lances em pedra, lindíssima. Mas foi usado como armazém e depois como campo de jogos."
À volta do picadeiro há várias casas baixas, usadas pelos funcionários que faziam observações meteorológicas ou regavam as plantas. "Em tempos eram autênticas barracas, depois foram arranjadas várias vezes." Ali funciona uma oficina de automóveis, outra de electricista, há até uma casa onde, conta-se, estará um túmulo antigo, tirado da universidade depois de um grande incêndio, e que ali ficou. Toda a zona é rodeada pela muralha do antigo Mosteiro da Cotovia, que desce por ali abaixo rodeando o jardim.
O Colégio dos Nobres foi extinto em 1837 e substituído pela Escola Politécnica de Lisboa, e mais tarde pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
E o jardim foi crescendo.
As estufas em frente da entrada (que até têm plantas carnívoras) já viveram melhores dias - algumas das propostas dos arquitectos prevêem que sejam recuperadas, outras propõem para o local um restaurante (neste momento não existe nem um café em todo o complexo dos museus e jardim). Junto das estufas erguem-se árvores, mas só quem conhece o jardim como o professor é que sabe que nessas árvores ficaram as marcas dos tiroteios da revolta de Fevereiro de 1927, durante a qual do jardim se disparava para a plataforma de São Pedro de Alcântara, lá em baixo, enquanto os obuses disparados daí aterravam na estufa tropical.
México e Cebolas
Continuando a descer chegamos a outra construção. "Esta peça muito bonita foi o observatório astronómico e tem hoje um interesse histórico", explica Catarino. Ali eram montados os telescópios, e o professor recorda como inicialmente estes eram focados num moinho ao longe e, mais tarde, passou a ser usado para esse efeito o S do então recém-construído Hotel Sheraton. "De vez em quando tínhamos que chamar os bombeiros para cortar os ramos desta árvore aqui em frente, porque tapava as letras do Sheraton."
Ao lado, abandonada e em ruínas, está uma casinha em madeira, modelo que serviu para testar as casas que no século XIX homens como Gago Coutinho (que foi aluno da Politécnica) levavam para África para fazer triangulações e observações astronómicas.
Se estivermos nesse ponto do jardim, virados para a zona do Parque Mayer, temos à nossa direita outro caminho de acesso à Rua da Escola Politécnica, e aí um outro edifício, mais recente, actualmente a ser usado pelo Teatro da Politécnica. Poderia, segundo algumas propostas, ser usado para restaurante. Daí para baixo, o jardim desce de forma bastante acentuada - passa-se por zonas como o México (assim chamado por ser onde estão plantas que não precisam de ser regadas) ou o Jardim das Cebolas (o das plantas com bolbo).
Seguimos junto ao muro - do outro lado existem os logradouros dos palacetes que dão para a Rua da Escola Politécnica. "Ali eram as cavalariças do palacete Ribeiro da Cunha. De noite saem do muro morcegos, corujas, é muito romântico, parece Sintra", diz o professor. A outra entrada, que deveria ser a oficial, do Jardim Botânico (à direita de quem desce) é "uma vergonha", e está actualmente fechada. Junto há um edifício em ruínas que poderá vir a ser um hotel ou uma escola.
E, pouco depois, chegamos ao fim. O jardim termina num bico, suspenso sobre o vazio que é hoje o Parque Mayer, e está separado deste por arame farpado, porque "dantes os ladrões roubavam as pessoas, saltavam daqui e iam pelos telhados directamente lá para baixo". Do lado esquerdo, se subirmos ao cimo do muro, vemos as traseiras dos prédios da Rua do Salitre, o parque de estacionamento ao ar livre, onde alguns projectos propõem novos edifícios, e outros mais espaços de jardim.
O Capitólio
De cima vê-se bem o abandono do Parque Mayer - do que é hoje um parque de estacionamento com dois ou três restaurantes e um teatro a lutar pela sobrevivência, ficará apenas o edifício do Capitólio, de Luís Cristino da Silva (classificado como edifício de Interesse Público e objecto de um concurso à parte). O resto do espaço é aproveitado de formas diferentes conforme os projectos: uma praça mais livre e verde em alguns; uma zona com muita construção nova, teatros, cinemas, lojas, ateliers, noutros. Mas, em todos, um novo pólo de animação para a cidade.
Por agora, daqui para baixo já não se passa. O Jardim Botânico está separado do Parque Mayer, e só nos resta voltar para cima, sair pela zona dos museus, e contornar todo o quarteirão para, no Príncipe Real, virar à esquerda e descer até à Praça da Alegria. A ideia é que no futuro deixe de ser assim.
Aliás, a ideia é que no futuro também a zona dos museus deixe de ser olhada como um conjunto de instituições que ocupam um mesmo espaço e passe a ser vista como um todo - os Museus da Politécnica (incluindo o Jardim Botânico) -, explica Maria Amélia Loução, vice-reitora da Universidade de Lisboa e membro do júri do concurso de ideias.
Por enquanto, a Universidade ainda está a definir quantos dos seus edifícios está disposta a alienar ou a alugar (ou qualquer outra solução a definir) para que os arquitectos tenham essa informação para a fase do plano de pormenor. "Há edifícios que temos que rentabilizar de forma sustentável, caso contrário temos problemas de sobrevivência", diz Amélia Loução. Muito vai depender das contrapartidas que lhes forem propostas, mas o facto é que neste momento "há áreas degradadas para as quais não temos capacidade de resposta porque não temos capacidade financeira". Apesar das dificuldades, a vice-reitora tem uma certeza: "Estamos decididos a sobreviver e a fazer disto um projecto da Universidade".
Quando - e se - isso acontecer, será possível visitarmos os Museus da Politécnica, almoçarmos num restaurante com vista para o Jardim Botânico, descer por entre as árvores, e acabar o dia a ver uma peça num dos teatros do Parque Mayer, apanhando o metro na Avenida da Liberdade para voltar a casa.

11 comentários:

Anónimo disse...

Onde e em que dias é possível participar na discussão dos vários projectos?

Jorge Dias

Anónimo disse...

Ahhh....aqui está a pérola abandonada da cidade. No dia em que este Jardim e os seu edifícios forem recuperados, Lisboa vai enriquecer.
Entretanto, com 10 euros anuais, podemos ajudar a pagar a conta da água e, salvaguardar este tesouro para geracões futuras:

Liga dos Amigos do Jardim Botânico
http://www.jb.ul.pt/liga/index.htm

JA

Anónimo disse...

Como aluno da FCUL tive a sorte de conhecer o Jardim Botanico em visitas guiadas pelo Prof Catarino.

Nao podia estar mais satisfeito com estas noticias!

Alguem sabe quando estara concluido?

Anónimo disse...

Este fabuloso projecto é do arq. Aires Mateus, não é?
O mesmo do belo edifício, que está previsto para o Largo do Rato, não é?
Está em grande, este sr.arq.
Vamos lá arquitectos, quando terminarem o curso, em vez de se filiarem na Ordem, inscrevam-se antes numa comissão de honra. ;)

Miguel Drummond de Castro disse...

O ar de piedosa surpresa com que a Alexandra Prado Coelho descobre o Jardim Botânico dá logo a entender que não conhece de todo Lisboa, porque qualquer alfacinha que ame a cidade sabe perfeitamente e desde miúdo onde é que fica o Jardim Botânico e já há muito o elegeu como lugar cativante e de recolhimento.
Só agora deu conta disso? De qualque modo não fale em nós, Alexandra, nem em jardim-obstáculo nem venha por favor com essa conversa gasta de acessibilidades ao espaço do jardim.

A ideia peregrina de fazer um café dentro do Jardim Botânico faz parte do leque de propostas banalizadoras desse jardim que é sobretudo Botânico e só muito secundariamente outra coisa.

A outra ideia de escolher para intervir no Jardim os irmãos Aires Mateus que estão na moda, não sei porquê, dado que nem sequer sabem dimensionar nem uma escada interior, como se vê no Centro de Artes de Sines, em que os degraus não "estão ao pé" e acabam de fazer mais um edificio monstrengo, um verdadeiro sarcófago, cinzentão, rectangularíssimo, ao lado da Pousada de S.Tiago do Cacém - não augura nada de bom. Esses irmãos Mateus não tem a menor sensibilidade ao meio ambiente, não fazem obra integrada, e praticam uma falsa arquitectura de vanguarda.
Sendo assim quando a ignorância se alia ao mau gosto e uma cronista lisboeta igualmente ignorante dá a sua benção pode-se temer o pior.

A ideia absurda com que Alexandra Prado Coelho termina o texto dá conta do seus propósitos de pequeno hedonismo utilitarista, transforma o jardim em cenário, a usufruir desde as janelas de um restaurante, e em descida entre árvores a caminho de um dos teatros. e assim confirma a ideia da secundarização, menorização e banalização do Jardim Botânico que aí vem.
Mais uma acha no Great Ecological Disaster que num tempo de cegos Lisboa sofre.

Miguel Drummond de Castro

Arq. Luís Marques da silva disse...

Seria absurdo, caso fosse esse o propósito, transformar o Jardim Botânico, num banal parque de diversôes.
Tenho receio de algumas intervenções que, em vez de valorizarem a obra em si, só servem para projectar o seus autores: Conforme foi referido atrás, o edificio do Largo do Rato, projecto do mesmo autor é, em minha opinião, disso sintoma.
Os lisboetas estão, cada vez mais atentos...
Já agora, relembro que continua em aberto, a petição online contra a sua construção.

Anónimo disse...

En Dublin ou em Viena (os que conheço melhor), um parque é um parque ponto final.Com árvores, flores, água, etc., locais de repouso, muitos como lugar de atravessamento no centro das cidades, onde se vai à hora de almoço e no final da tarde (conforme o tempo) os pais com os filhos. E pisam a relva.Sentam-se na relva.
Suponho que também levem os cães, mas não se dá por eles, ou melhor, não deixam vestígios.
ISABEL

Anónimo disse...

A dona Alexandra é do Porto. E é muito mais do que isso, é PS.
Que espanta que escreva o que escreva e aplauda os projectos de semelhante arquitecto, tão acarinhado pelo poder?
Pobre Lisboa.

Mariposa Roja disse...

Como frequentadora assídua do Jardim Botânico de Lisboa penso que este espaço não precisa de café nem de novas entradas (uma vez que já possui três)mas de água para regar os seus magníficos e históricos espécimes e de uma biblioteca aberta, uma vez que a única existente tem estado encerrada devido a não haver dinheiro para contratar novo funcionário.

Nesta cidade destruída pelo ruído e a voragem do saque quotidiano, ir ao Jardim Botânico, significa ter um refúgio de silêncio e beleza. A possibilidade de por umas horas viver a companhia das árvores e dos espécies animais que ali vivem.
É absurdo querer fazer deste jardim um corredor de gente atarefada, atrasada, diletante, distraída, ruidosa, etc ,etc, etc.
Para isso temos muito lá fora.


A avaliar pelas patifarias que as pessoas praticam nos outros jardins e em qualquer espaço verde não vedado, chego, por vezes, a pensar se não seria melhor, voltarmos ao conceito de jardim fechado medieval.

Se existe orçamento para gastar então porque não se aproveita e editam finalmente os novos roteiros do Jardim, e se adquirem publicações relacionadas com a botânica? Porque não se trabalham os viveiros e se disponibilizam sementes?


Existe este equívoco de que a Natureza tem de ser animada, de que é preciso fazer actividades, percursos, só quem anda morto ou a dormir é que ainda não percebeu que essa lacuna é apenas sua.

Susana Neves

Mariposa Roja disse...

No Jardim Botânico existem várias edificações que poderiam, caso fosse realmente indispensável, ser usadas para o tal café ou restaurante. Portanto, não há necessidade de construir mais.

Se há dinheiro para investir no Jardim então que esse orçamento seja realmente útil às árvores que o habitam e não ao currículo de um arquitecto.

O Jardim Botânico é um pulmão de oxigénio na cidade, onde os outros micro-pulmões - ou seja quintais com árvores - têm sido destruídos. Além disso, a partir da sua história é possível reconstituir a aventura das plantas e de todos aqueles que as apreciaram e estudaram ao longo dos séculos.

Os visitantes mais perturbadores deste espaço de serenidade e cultura são sobretudo aqueles que ao fim-de-semana passam a correr, com a prôle aos gritos e com um tipo de comportamento consumista: não param porque não há nada para comprar e porque vivem ceguinhos para a beleza e para o pensamento.

Francamente é impensável ver o Jardim Botânico como um "obstáculo a contornar" ou a atravessar. O Jardim Botânico é um património da cidade, que vale por si mesmo, sendo injustificável que o dinheiro dos nossos impostos não garanta à partida a sua boa conservação.

Mantê-lo vivo descaracterizando-o é
matá-lo de outra forma.

Os Jardins são Paraísos domesticados mas ainda assim Paraísos, o comportamento porcalhão
e agressivo que se nota em Lisboa (e no País inteiro) relativamente ao cidadão vegetal é um sinal infelizmente revelador de que esse tipo de pessoas vive no Inferno das suas muitas limitações existenciais. Não acedeu ao Paraíso, e poderá vir a destrui-lo com o mesmo à vontade com que depois de fumar confunde uma caldeira de uma árvore com um cinzeiro.


Susana Neves

Anónimo disse...

Tem toda a razão Susana Neves, o JB como sabe é o melhor segredo de muita e boa gente que ainda não perdeu o senso e a razão, nem vendeu a alma a duvidosas modernizações com as suas narrativas pobres, esterilizadoras.

O melhor é conservar o JB tal como ele está, regando-o, reparando o construído - sustentando-o com a integridade que deve ter. Tem espaço noutros lados da cidade para criar os jardins da contemporaneidade - que eu também gostaria de ver desenvolvidos.

A meu ver o problema de Lisboa consiste não só em recuperar os Jardins que tem - e se calhar vai ter que passar por fazê-los murados - ao estilo do hortus closus medieval e com bilhete de entrada pago - como também disponibilizar mais áreas de todas as dimensões por toda a cidade para Jardins.

Doutro modo como bem diz vamos ter autómatos cheios de pressa sem tempo para ver e para contemplar, porque não haja dúvidas há uma défice enorme de possibilidades contemplativas nos nossos dias. O que faz que sejam cegos a construir para outros cegos, e surdos e mudos a governar para outros surdos e mudos.