28/08/2014

Salgar o Chão...

Não é segredo para ninguém que o português, mas mais especificamente o Lisboeta (porque é destes que tratamos aqui no Cidadania LX) não tem muita sensibilidade para o património que é, muitas vezes, um mero alibi para nos fazermos de civilizados, mas que uma apreciação mais atenta desfaz qualquer ilusão.
Os políticos, de que nos queixamos tanto, são um mero reflexo do que somos como sociedade. Assim, o que esta cidade precisa é de um político que não veja a CML como um trampolim para patamares mais elevados da política, ou como um garante de certos interesses, mas um idealista que concretize objetivos, mesmo afrontando os interesses acomodados de cidadãos, como o que não aconteceu com as obras na Rua Alves Redol ao IST, onde os moradores impediram o alargamento dos passeios para não se eliminarem lugares de estacionamento à superfície, e preferiram a manutenção dos passeios exíguos e cheios de bloqueios! Foram-lhes oferecidos lugares no estacionamento subterrâneo que havia sido construido na rua!
Desta feita, somente uma Câmara Municipal gerida por pessoas assim poderia ter travado o processo de destruição do património arquitetónico da cidade e a salvaguarda integral do n.º 55 da Avenida da República, por exemplo, estaria sequer em discussão.
Sr. Vereador/Arquiteto Salgado, e este? Vale a pena preservar ou não?

De autoria do grande Arq. Norte Junior, está/esteve à venda juntamente com os vizinhos arruinados. Pensou-se em hotel mas tal já foi descartado. Foi?

Mas como é que se deita no lixo uma coisa destas! É chocante como os proprietários, técnicos da CML e demais intervenientes não pensam que estes interiores e outros devam ser mantidos, Mas será que seremos os únicos a perceber isto, e mais uns quantos milhões mas que, infelizmente, são todos estrangeiros e a gozar das suas cidades maravilhosas... com edifícios como este.


Este edifício tem interiores do mais interessante. Quando se despe um interior destes e se cobre tudo com gesso cartonado com focos, e outras modernices, está a substituir-se o genuíno pelo sucedâneo. Então porque se paga tanto pela imitação, quando o original estava acessível. Que sociedade esta em que nos transformámos!

Enquanto isto o vizinho do lado está assim. Incêndios sucessivos deixaram a fachada e pouco mais. Querem convencer-me que foi tudo um acaso? Podem tentar...
Por mais prémios que Lisboa ganhe como destino turístico, não podem esconder este fenómeno de que todos são testemunhas e muitos são culpados, de destruição da nossa memória. E isto porque na nossa sociedade, património é incompatível com as ambições grosseiras de quem é proprietário destes imóveis.


20 comentários:

Paulo disse...

Vocês aqui do blogue ainda não perceberam ou fingem não perceber:
As restantes cidades europeias não sofreram com 100 anos de rendas congeladas. Além disso não têm a nossa burocracia que impede tudo e mais alguma coisa (a não ser através de cunhas; aí aprovam qualquer coisa). Lá fora foi havendo manutenção ao longo das décadas. Aqui não, e os prédios chegaram a um ponto de não retorno.Tivessem pensado nesse problema em 1980 ou 1990. Estamos em 2014, a porcaria já está feita, é doença terminal.

A. M.C. disse...

Caro Paulo,
devo lembrá-lo que muitas cidades europeias tiveram aquilo que nós nunca tivemos: guerra, bombardeamento, destruição em larga escala. Isso serve de desculpa para não preservar o que existe e recontruir o que foi destruído? Não!
Não percebo ou finjo não perceber o que as rendas congeladas têm a ver com o facto de não se renovar criteriosamente, porque não me argumente que os edifícios são irrecuperáveis porque não são!
Estamos em 2014 e a fazer como nos anos 60: destruir património para construir novo, moderno (mas não bonito). Volto a repetir: o nosso povo é bruto e inculto.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

As rendas congeladas nada têm a ver com a incúria generalizada com que as diversas vereações têm tratado a cidade. Hoje em dia já nem sequer é só a arquitectura de transição que está ameaçada, palácios, prédios pombalinos, lojas de tradição, igrejas, está tudo a saque e à mercê do abandono ou das ditas reabilitações que o que fazem é desvirtuar para sempre o património. Em garnde medida, é este o retrato da cidade de Lisboa.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

As rendas congeladas nada têm a ver com a incúria generalizada com que as diversas vereações têm tratado a cidade. Hoje em dia já nem sequer é só a arquitectura de transição que está ameaçada, palácios, prédios pombalinos, lojas de tradição, igrejas, está tudo a saque e à mercê do abandono ou das ditas reabilitações que o que fazem é desvirtuar para sempre o património. Em garnde medida, é este o retrato da cidade de Lisboa.

Anónimo disse...

" devo lembrá-lo que muitas cidades europeias tiveram aquilo que nós nunca tivemos: guerra, bombardeamento, destruição em larga escala. Isso serve de desculpa para não preservar o que existe e reconstruir o que foi destruído? Não!"

Na mouche!

Filipe Melo Sousa disse...

Acho que escapou aqui aos comentadores do blogue que após os bombardeamentos não restou nada para preservar. Vão visitar Berlim e inteirem-se.

Anónimo disse...

Ninguém aqui parece ter em conta o facto de Lisboa ser uma cidade sísmica, ao contrário de quase todas as grandes cidades europeias.
Estes edifícios são lindíssimos mas mais tarde ou mais cedo vão cair em cima dos seus moradores! Ao menos com etas obras, salva-se a fachada, porque se houver um sismo, nem isso.

Anónimo disse...

Até parece que todas as cidades europeias sofreram bombardeamentos em larga escala...

Anónimo disse...

Edifícios pombalinos são facilmente recuperáveis. Os edifícios gaioleiros nem por isso, e têm graves problemas estruturais.

A. M.C. disse...

Caros comentadores:
se a sismologia fosse argumento para demolir aquilo o que é a memória histórica arquitetónica da cidade nós valíamos, como povo, quase nada. Um povo sem memórias é uma unidade vazia. Dever-se-ia começar, então, a demolir numa ponta e acabar noutra, ficando Lisboa reduzida às belezas arquitetónicas que os actuais nos tristemente habituaram.
Cidades como Dresden, Londres, Munique, Madrid (com a guerra civil), Berlim foram amplamente destruidas na guerra. Qualquer um dos países onde estas cidades se encontram são exemplares na preservação de património.
Berlim é uma cidade em movimento, vastíssimos bairros sairam da guerra e da noite da RDA muito degradados mas estão a ser recuperados e tem hoje, a cidade, mais integridade arquitetónica do que Lisboa. Vivi lá, sei do que falo.
Já ouviram falar do Palácio Imperial de Berlim? está a ser reconstruído depois de não restar quase nada. O Palácio da cidade de Potsdam, mesmo ao lado de Berlim? Foi reconstruído. Charlotenburg? Idem... A Catedral Imperial? posso estar aqui a dar exemplos à exaustão.
Problemas estruturais resolvem-se de uma forma mais barata do que reconstruir interiores. Na Avenida António Augusto de Aguiar um edifício magnífico do início do séc. XX estava com problemas seríssimos de afundamento e as fundações foram reforçadas. O projecto garanto que foi mais barato que fazer os interiores com demolição.

Anónimo disse...

Portugal teve o seu bombardeamento de rendas a 5 euros.

Anónimo disse...

"Acho que escapou aqui aos comentadores do blogue que após os bombardeamentos não restou nada para preservar. Vão visitar Berlim e inteirem-se."

---//---

Sr FMS, acho que lhe escapou alguma coisa... Sei que não vive por estas paragens, no entanto presumo que ainda saiba ler Português e interpretar textos e argumentos.
Se assim for aconselho-o a ler, mais uma vez, e apalavra por palavra, a seguinte frase que foi proferida pelo autor do artigo e que retrata bem os costumes dos países que foram afectados:

" reconstruir o que foi destruído? ""

Julio Amorim disse...

NENHUM edifício que se mantenha na vertical pelas suas próprias estruturas....é irrecuperável !!

Rui disse...

O fms que vá visitar locais como a cidade velha de Varsóvia.
Começe pelo Old Town Market Place:

https://www.facebook.com/unesco/photos/a.10150253911838390.341477.51626468389/10152580950348390/?type=1&theater

Depois dê um pulo a Frankfurt e a Dresden.

Quanto a Berlim: Inteire-se do que é que estão a fazer ao Stadtschloss e ao Potsdam City Palace!


Não existe moderação neste blog?

É que é sempre o mesmo com os mesmo argumentos enganosos e a demagogia barata de sempre!!


Filipe Melo Sousa disse...

Estou inteirado disso tudo e conheço isso tudo. Nao chego nem de perto as mesmas conclusões. O que caiu perdeu-se para sempre.

Paulo disse...

Sr. Rui, não seja demagogo você. Dar um pulo a Frankfurt? Frankfurt tem de facto edifícios lindíssimos reabilitados, mas tem também modernos arranha-céus. Existe um equilíbrio, tanto apreciam o passado como o futuro. Faço ideia a polémica que seria aqui neste blogue se construíssem uma torre dessas em Lisboa, mesmo que fosse em sete-rios ou no parque das nações.

Anónimo disse...

Filipe,
as conclusões a que chega de nenhuma relevância têm nos países referidos. O que caiu foi recuperado, reconstruído, para deleite de todos, orgulho dos locais e vergonha dos portugueses que têm elementos como vossa ex.ª que infelizmente não são casos isolados nesta nossa urbezinha.

Filipe Melo Sousa disse...

O mesmo argumento serve em Lisboa. Foquem-se nos prédios que não foram vítimas das rendas de 5€.

Rui disse...

Sr. Paulo, vá lá ler outra vez o comentário que eu proferi.

Agora diga-me: Por acaso escrevi alguma coisa contra a construção de arquitectura contemporânea na cidade de Lisboa? Não pois não..

Deixe-se de comentários desonestos!





rreconstrução e preserrvação

Anónimo disse...

Seria bom que o blogue cidadanialx fizesse um tópico sobre este tema. Actualmente, mais de metade dos lisboetas pagam até 60 euros de renda. Veja onde estão os imóveis com rendas mais baixas e mais elevadas em Lisboa:

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/rendas/detalhe/infografia_quanto_se_paga_de_renda_em_lisboa.html