13/08/2014

Percurso pelas rua do Arco a S.Mamede, rua dos Prazeres, travessa do Cego, rua da Quintinha, rua da Imprensa

Por todo o lado neste percurso as "reabilitações" matam a harmonia das casas, sejam elas populares como a da fotografia, sejam palacianas. As fachadas são cortadas para que se cosntrua a inevitável garagem, os materiais escolhidos, sempre num aprumo de "originalidade" e de "criatividade" que muito dizem sobre o respeito que os arquitectos têm, no geral, sobre o pré-existente, são de gosto duvidoso. Este é o coração do centro histórico. Mas não importa, avancem os novos conceitos e convença-se o povo que se está a reabilitar Lisboa. Casa na rua do Arco a S. Mamede.

Rua da Imprensa, as demolições avançam sem parar. Nenhuma zona de Lisboa está já a salvo. Aqui nascerá mais uma daquelas casas Aires Mateus, muito capa de revista da especialidade, muito inovadora e inteligente, muito minimalista. Paradoxal conceito. de tanto minimalismo acabam por maximizar a destruição da cidade e a sua banalização.

A harmonia das casas tradicionais de Lisboa está a saque. Os rasgões das garagens são feridas insanáveis.

Lisboa será lida do rés-do-chão para cima. Fachada da mesma casa. De realçar os ferros das varandas, a cantaria das janelas. Este pouco é muito mais do que aquilo que os arquitectos em voga nos oferecem. Rua dos Prazeres.

Onde havia simetria há agora desequilíbrio. Mais uma conveniente garagem na inconveniência da trivialização de uma cidade que tinha tudo para ser singular.

O auge do mau gosto. Mais uma reabiliatção à moda de Lisboa. Travessa do Cego. Dir-se-ia que cegos são os que desenham estes monos, os que os aprovam, os que os aceitam. Já nem as águas-furtadas escapam. As telhas de canudo desaparecem para dar lugar a uma coisa, decerto da categoria dos acabamnetos de luxo para imóveis de prestígio, que não é carne nem peixe e que acaba por acentuar a fealdade e o tiro ao lado que é esta caixa.

Rua dos Prazeres, azulejos em falta nas fachadas é já uma imagem de marca desta cidade. Vendem-se bem e os estrangeiros gostam deles mais do que nós.

Uma garegem século XXI debaixo de janelas dos sécs. XVIII/XIX. Deve ser este o contraste harmonioso de que nos falam.

Nesta é maior a garagem do que a casa. Lisboa cidade de todos os excessos. 

Rua dos Prazeres, esta está à espera da reabiltaçãozinha que lhe acrescentará umas águas-furtadas de zinco, janelas de PVC cinzento e uma bela garagem ali do lado esquerdo. Em Lsiboa é fácil ser-se vidente.

Nenhuma rua de Lisboa é tratada com o devido respeito, nenhuma vê o seu património inventariado na íntegra, nenhuma faz parte de uma cartografia de ordenamento urbano. Definiram-se territórios de intervenção prioritários, zonas de protecção especial, etc. Figuras de estilo que não chegam para enganar o que a realidde nos traz todos os dias: menos cidade e mais facilitismo na sua adulteração enbcoberta por um certo ar de modernidade, tão inútil como fatal para Lisboa.

Esta imagem e a próxima estão aqui para provar que é possível reabilitar sem estropiar o património pré-existente nem ceder à tentação da garagem. Fossem todos assim  e outro galo cantaria


Magnífica casa apalaçada que torneja para a rua da Quintinha. Está neste estado à espera da derrocada final ou de uma Five Stars qualquer que lhe dê o tratamento habitual.

Este é um prédio de rendimento da viragem dos séculos XVIII-XIX. Obedecia a uma simetria: dois imóveis separados por pilastras. O da esquerda está intacto, existindo na entrada belíssimos páineis de azulejos do século XVIII. Nele viveu Vellozo Salgado. O segundo é este. Onde antes existiam janelas e portas, encontra-se esta boca de garagem. Rua da Quintinha. Na Lisboa do século XXI ainda se fazem estes atentados. É por toda a cidade. Nenhum bairro escapa, nenhuma periferia, nenhum centro histórico. Lisboa é hoje uma cidade mais pobre e mais triste.

11 comentários:

Anónimo disse...

pior que a existencia das garagens, e mesmo fazerem-nas sem qualquer cuidado ou gosto, parece que escolhem o primeiro portao que encontram..

Filipe disse...

Acho preferível fazer garagens do que estacionar em cima dos passeios

Anónimo disse...

Tudo casos horrorosos.

Este, em plena Calçada da Estrela, é o pior exemplo:

http://cidadanialx.blogspot.pt/2014/03/reabilitacao-urbana-no-seu-melhor.html


Anónimo disse...

Que seria deste blogue sem um bom despejo regular de bílis, não é Sr. Velloso?

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Reagindo ao anónimo das 4.43,

Não sofro dessa doença e não costumo agir sem razão, movido só pelo olhar crítico.

O que publico aqui tem prende-se com uma visão e escolha de cidade que considero profundamente errada e injusta para com Lisboa que, como sabemos, tinha tudo para ser uma cidade excepcional.

Esta minha posição tb nada tem a ver com saudosismos bacocos. Gosto de muitas intervenções modernas na cidade, ex: novo Museu dos Coches e Centro de Artes da EDP, a fantástica galeria de arte urbana espalha pela cidade, etc. Apontar o que está mal e decorre de escolhas mal ponderadas e desrespeitosas do riquíssimo património lisboeta nada tem a ver com esse mal que o senhor anónimo me aponta e que parece até bastante repugnante, tal como a atitude de acusar em branco. A sua, afinal.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Reagindo ao conetário de Filipe,

Sim concordo que os carros em cima dos passeios não servem a cidade. Mas não podemos aceitar que na esmagadora maioria dos casos de novas reabilitações, os rés-do-chão sejam esventrados e a harmonia do edificado pura e simplesmente desapareça.

Outas cidades tb têm carros e resolvem a coisa de outra forma, Madrid, Bruxelas e mesmo Nápoles. Nem sempre de forma ideal, mas melhor do que aqui.

Em terrenos devolutos, em vez de serem consagrados à especulação imobiliária, criem-se parques de estacionamento de zona, dedicados maioritariamente aos moradores.

Anónimo disse...

"Que seria deste blogue sem um bom despejo regular de bílis, não é Sr. Velloso?"

---//---

Deve sofrer de algum tipo de distúrbio que o impede de ver a realidade e as coisas como elas são.

Ou de uma certa condescendência/forma de estar na vida (a do "deixa andar" que levou esta cidade ao estado em que chegou).

Ou então é um militante/funcionário camarário mais melindrado, de um executivo incapaz de resolver certos problemas e que parece não gostar sempre que alguém lhes menciona os "podres".

Tenho pena que o mesmo anónimo não tenha a honestidade intelectual suficiente para ver que: O que os intervenientes deste blog se limitam a fazer é expor a tal "bílis" que é despejada diariamente nesta cidade.

A cidade só tinha a ganhar!

Mas enfim, quem diz as verdades é sempre "o desagradável."

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

reagindo ao anónimo das 3.20

Obrigado pelo seu comentário onde leio um apoio ao que se tenta fazer através das colunas deste blogue.

Cá estaremos para mais causas. Sejam as más, sejam as boas.

Paulo disse...

Alguém me elucide, por favor. Estas garagens são:

Opção dos arquitectos?

Imposição por parte do investidor?

Lei que obriga a ter estacionamento?

Pedro disse...

Neste País, chamado Portugal, cada um faz o que quer. Ponto final.

Anónimo disse...

Pergunta pertinente, a do Paulo.

Eu é que não quero estar cá no próximo abanão a sério.

Vai tudo a baixo!