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20/09/2016

O remate "ao" Palácio da Ajuda


Sobre este remate “ao” Palácio Nacional da Ajuda, apenas algumas notas (valem o que valem) do que acho estar bem e estar mal, para quem as quiser ler (aviso que é grandote):

1. Há que dar os parabéns (sinceros) ao Governo e à CML por demonstrarem afã e coragem (o tema, inexplicavelmente, sempre foi reclamação exclusiva dos tendencialmente monárquicos) em querer solucionar este assunto da ala inacabada da Ajuda, uma verdadeira VERGONHA nacional.

2. Contudo, acho que o que está aqui em causa merece um DEBATE PÚBLICO (por mais tempo que demore, desde que seja conclusivo) com consulta pública, divulgação de todos os projectos de remate (ou estudos prévios, como é o caso mais recente) feitos até hoje, enunciando-se os prós e contras de cada um deles, desde o impacte visual ao custo financeiro e tempo de obra (para se evitar que tudo seja para inaugurar à pressa…), passando por uma questão essencial: é melhor terminar-se a ala poente ou mantê-la inacabada, desde que com arranjo paisagístico adequado?

3. Depois, um projecto desta natureza deve ser objecto de um CONCURSO PÚBLICO INTERNACIONAL (CCB, lembram-se?). Estamos no século XXI e não propriamente no tempo das adjudicações por despacho. E este remate não é a um simples prédio de esquina nem ao estaminé de junta de freguesia mas a um palácio nacional, por acaso talvez o mais importante do país.

4. A forma encontrada para o FINANCIAMENTO do projecto parece-me boa e muito bem achada, e justa, se por via directa das receitas das taxas criadas recentemente. Nada a opor, portanto, e tudo a aplaudir, ainda que me pareça que o custo final será muitíssimo superior ao agora estimado, como tudo o que é feito neste país. Mas custa-me que seja a CML a ter o grosso do esforço financeiro, quando o palácio é NACIONAL, mas já estamos habituados, vide o Arco da Rua Augusta, outro dos símbolos maiores do Poder Central (e não há que ter medo das palavras) está entregue à CML desde 2012 e com bons resultados (não é disso que se trata), enfim, sinal dos tempos.

5. Muito menos há algo a opor ao programa encontrado para exploração da ala poente: as JÓIAS, as pratas e os tesouros escondidos ou mal expostos na Ajuda merecem estar expostos e bem expostos ainda que o ideal fosse usar toda a ala Norte para o efeito, fazendo sair dali os serviços vários que ali estão. Ainda que nunca tenha percebido como é que havendo ali a Galeria D. Luís I, claramente subvalorizada bastas vezes sem saberem o que lhe hão-de fazer, não seja transformada em exposição permanente dessas mesmas jóias.

6. Sobre o estudo prévio agora apresentado, e independentemente da bondade e da originalidade da sua autoria (o seu autor é dos próprios quadros, dirigentes, da DGPC), acho aquela SOLUÇÃO ESTÉTICA no mínimo decepcionante, e no máximo horrorosa. Não havia outra forma de dar um tratamento moderno, asséptico, limpo à fachada (eu sei que detestam o pastiche…) mantendo a pedra (lioz?) sem ser transformando-a naquela grelha de barbebue? Num “estore” monumental? E déjà vu ainda por cima – vide a ceaucescuniana CGD, a sede paquidérmica da EDP ou até à mirrada fachada do museu antoniano à Sé.

7. Por fim, só se fala no remate e nos milhões para o remate. Mas um projecto que vise, e bem, terminar com a vergonha da Ajuda, acabando ou mantendo a ruína existente, não é projecto a valer se se esquecer das DEMAIS VERGONHAS FÍSICAS da Ajuda: o estado calamitoso do belo torreão Sul, o torreão Norte à espera não sei bem do quê, os Serenins cheios de computadores e com água a entrar pela cobertura, a Torre do Galo com rachas monumentais e com sinos presos por milagre, e a praça miserável em que está, e, por fim, o Jardim das Damas, exemplo maior da não cooperação entre a Ajuda e a CML, pois continua por abrir ao público e com problemas técnicos por resolver...

7 comentários:

Anónimo disse...


Bom senso e sabedoria, neste artigo, que se espera ver editado no Público ou outro jornal.
- Mas temos de AGIR COM RAPIDEZ, para este DEBATE avançar, e suspender a decisão ANTI DEMOCRÁTICA.

- A solução arquitectónica é pavorosa, chocante e agressiva.

- A mais digna, a que não agride a beleza e equilíbrio do EXISTENTE, e que tem de ser aprovada pela DGPC e cidadãos, será no mesmo estilo mas sem torreões.Importa ainda assegurar que a fachado do belo PÁTIO seja igual às outras.
- E, além do referido neste excelente artigo-avaliação, outra parte do projeto original que nunca houve coragem para executar, deve ser a DEMOLIçÂO do edifício à direita, para que a Praça seja alargada e desafogue a monumental frontaria

Anónimo disse...

Pavoroso, chocante e agressivo é este hábito muito "geração de 50" de escrever em maiúsculas.

Alvaro Pereira disse...

Caro amigo

Os meus parabéns pelo seu artigo sobre o Palácio!

Diz tudo o que tem a dizer, "sem papas na língua", se me permite a expressão.

Os meus melhores cumprimentos!

Anónimo disse...

Este projeto de remate do palácio da Ajuda é, mais do que qualquer coisa, a prova do "estado das coisas" no que toca a património e o entendimento que fazem as autoridades mandatadas para a sua boa preservação e os cidadãos em geral que são os principais inimigos do património (e provas do que afirmo são fáceis de encontrar por todo o país)
Mais uma vez opta-se pela solução simples e não a solução correta.
Já sei que vai haver quem se ponha aos gritos com o conceito de solução correta, argumentando que o que é correto para mim não é para outros. Mas se pensarmos que o que se está a fazer na Europa, e é nesse contexto que devemos comparar-nos porque é esse o nosso contexto efetivo, tem se optado por fazer a reconstrução segundo os projetos originais, de forma que fique uma "costura perfeita" entre o que foi começado antes e o que foi acabado depois, proporcionando verdadeira dignidade ao monumento e oferecendo às gerações actuais e futuras o gozo pleno daquilo que foi a intenção de uma época, gosto, filosofia e arte.
Este projeto não é digno do palácio da Ajuda, perpetua a incapacidade que tivemos de o completar, oferece uma sensação de ruína lavada e branca, mas ainda assim uma ruína. E é precisamente na secção moderna que querem expôr pratas e jóias, como se fez (e mal) com o novo museu dos coches que não é mais do que uma caixa estéril para peças museológicas preciosíssimas).
Esta foi uma decisão preguiçosa de quem não quis fazer tudo o que está ao alcance para obter o melhor resultado mas tirar proveitos rápidos de ter dado uma solução e apresentar trabalho feito.
Aqui ao lado em Espanha terminou-se a Catedral da Almudena, ao lado do Palácio Real do Oriente, em Barcelona continuam as obras da catedral da Sagrada Família, em França estuda-se a reconstrução do Palácio das Tulherias e de Saint Claud, na Alemanha reconstrói-se o Palácio Imperial de Berlim, reconstruiu-se a Igreja de Maria em Dresden (fora e dentro), o Palácio Real de Potsdam entre outros, na Rússia várias catedrais foram reconstruídas, o Palácio de Pedro e o Palácio de Catarina foram total e integralmente reconstruídos (e são as maiores atrações da Europa com filas de horas para entrar) e muitos, muitos outros casos. Aqui até tivemos bons casos, como a Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional)...
Quando deixarmos de ser tão pequeninos e patéticos vamos ser um país que respeitamos e que outros respeitam.

LuisY disse...

Concordo com as suas palavras.

Julgo que estão a impor-nos uma solução estética muito duvidosa para um palácio que é um bem público, um monumento que todos pertence.

Pessoalmente, quando vi a o projecto da fachada virada para a calçada da Ajuda, lembrei-me imediatamente da Fundação EDP na 24 de Julho, que é simplesmente horrenda.

Quando se pretende intervir num palácio histórico há que faze-lo com respeito pela estética com que o edifício foi concebido originalmente.

Pessoalmente acho que a actual ruína da fachada Oeste tem muito mais dignidade do que esta palhaçada que propõem.

Um abraço e força

Carlos Moura disse...

Ainda não consegui entender como é que uma obra a realizar maioritariamente com fundos da CML, via Associação de Turismo de Lisboa - que também não se entende o que aqui faz, se leve a cabo sem que um único projecto ou protocolo tenha sido levado a Sessão de Câmara... Há qualquer coisa que não vai bem quando se esconde todo o processo até dos edis da cidade.

Anónimo disse...

Nem mais. O anúncio não só cai que nem uma bomba como no próprio dia todo este processo/projecto é apresentado e efectuado da maneira mais anti-democrática possível.

Um autentico raide!