29/05/2018

Denuncia, obra CML, junto à Sé de Lisboa

Chegado por e-mail:

«Caros Srs. do Fórum da Cidadania Lx,

Gostaria de expor aqui uma situação que eu acho que não beneficia ninguém e que traz bastante prejuízo a turistas, comerciantes e moradores de Alfama.

Em Junho de 2016 foi iniciada uma obra para instalação de um elevador, que ligaria a rua Cruzes da Sé, ao Campo das Cebolas.
A obra teria um prazo previsto de 1 ano e meio, conforme foi amplamente divulgado e informados comerciantes e moradores.

A obra teve o seu inicio em Julho desse mesmo ano. Durante os 5 meses consequentes, efetivamente houve trabalhos e estiveram a efetuar as necessárias escavações. Depois desses 5 meses a obra parou e nunca mais houve qualquer movimento no estaleiro.

Portanto temos que uma obra parada à um ano e meio, sendo este o aspeto da entrada da rua Cruzes da Sé, que confina com um dos monumentos mais visitados em lisboa, a Sé de Lisboa. Contactada a EMEL (suposta empresa que gere a empreitada), informam-nos que não têm previsão para o reinicio da obra e consequentemente para a finalização desta (em anexo resposta aos emails enviados a questionar quando recomeçaria a obra).

Contatei já a Junta de freguesia para conseguir reunir com o Presidente da Junta de Santa Maria Maior e estou a aguardar que me informem de uma data.

Em anexo fotografias da entrada da rua, a qual pelo andar da carruagem deverá ficar assim mais uns 5 anos. Para além do mau aspeto que provoca visualmente existem uma série de outros inconvenientes, tais como:

1. O aparecimento de ratos nesta zona, entram e saem de dentro do estaleiro da obra constantemente.
2. Mendigos que fazem as suas necessidades nesta zona, por conseguirem esconder-se atrás do estaleiro.
3. Com a degradação dos materiais do estaleiro, durante este Inverno, voaram chapas metálicas que se soltaram.

Vergonha este executivo da Câmara de Lisboa.

Com os melhores cumprimentos,

Ana Beirão»

12/05/2018

A impiedosa destruição do património arquitectónico de Lisboa


Por Fernando Silva Grade
In Público Online (9 de Maio de 2018)


Alguém disse que Lisboa é muito mais bonita que Paris. Embora a cidade-luz tenha extraordinários monumentos e avenidas glamorosas, tudo isso não basta para que a sua beleza ultrapasse a de Lisboa, assente noutros pressupostos que, todavia, não são em geral detectados pela maior parte das pessoas.

A conjugação de uma orografia de uma complexidade rara, traduzida nas celebradas sete colinas, juntamente com um casario espontâneo que, ao longo de séculos, se foi empoleirando e esgueirando declives acima, assomando e dominando a presença do Tejo em águas furtadas e janelas de sacada, numa variabilidade arquitectónica de grande riqueza e marcado cunho cultural, congeminou um conjunto urbano de grande efeito estético e cénico, cujo descobrimento e reconhecimento a nível mundial veio finalmente celebrar.

Poupada aos bombardeamentos da 2.ª Guerra Mundial e aos desmandos dos ”Haussmann“ deste mundo, Lisboa manteve praticamente incólume a sua configuração antiga até aos dias de hoje.

Infelizmente, tal vantagem parece que não foi entendida pelos decisores políticos, técnicos ligados ao urbanismo e população em geral. Só assim se compreende o facto de a cidade ter entrado num vórtice de desmantelamento dessa sua integridade original, correndo o risco de perder para todo o sempre a sua aura de beleza e carisma e deixar cair por terra o seu estatuto de “cidade simbólica da humanidade” (Paulo Varela Gomes).

Resolvi escrever este artigo depois de recentemente ter ouvido algumas opiniões sobre a cidade de três personalidades que me habituei, de há muito, a admirar e respeitar: Daniel Oliveira, Clara Ferreira Alves e Miguel Sousa Tavares. Confesso que os seus juízos me desiludiram pelo facto de terem omitido qualquer referência à descaracterização galopante a que a cidade está actualmente sujeita e cuja evidência se revela com veemência aos olhos de qualquer pessoa cujos sentidos estejam a funcionar normalmente.

No programa da SIC-Notícias, O Eixo do Mal, de 24 de Abril, onde foi debatida a problemática dos centros históricos de Lisboa, não foi referida uma única palavra pelos participantes acerca do escandaloso processo de desfiguramento e falseamento em curso da integridade arquitectónica dessas zonas.

No Telejornal da noite da SIC, no dia 30 de Abril, ainda sobre a mesma temática, Miguel Sousa Tavares chegou mesmo a elogiar o processo em curso de reabilitação dos edifícios antigos. Admira-me que este autor e jornalista, que muito prezo, e que teve o imenso mérito de ter denunciado durante anos, em demanda quase solitária, a destruição criminosa do Algarve, não se tenha apercebido de que o que se está a passar em Lisboa na actualidade não é mais que uma versão equivalente do que se passou no Algarve nos anos 80 do século passado. Quer a nível das destruições, quer a nível das descaracterizações. No que respeita às reabilitações, elas quase não existem em Lisboa. Na verdade, o que existe são modernizações standard, feitas à revelia de qualquer preocupação na preservação da integridade construtiva, da autenticidade e do cunho histórico dos edifícios. Aliás, na maior parte das vezes, demole-se tudo à excepção da fachada, que por sua vez é alterada e "higienizada". No Algarve são os resorts, em Lisboa os pastiches – tudo farinha do mesmo saco!

Tudo leva a crer que tais personalidades não passeiam, por exemplo, em Alfama e assim não podem constatar o grau avassalador e vertiginoso de como aquele bairro está a ser desfigurado a cada dia que passa: portas e janelas em alumínio detestável em substituição das originárias em madeira, já quase inexistentes; fachadas betonizadas e pintadas com horrorosas tintas plásticas de cores pirosas e berrantes; “reabilitações” chapa 7 que não deixam o mais leve traço do carácter dos edifícios intervencionados; construções contemporâneas, em absoluta dissonância com o espírito do lugar. E isto passa-se não só aí mas em todos os outros bairros históricos de Lisboa.

Quem gosta e pode viajar já teve seguramente a oportunidade de visitar e deslumbrar-se com um dos ícones da arquitectura tradicional a nível mundial, Chefchaouen, no Riff marroquino. Imagino o que pensariam e sentiriam tais viajantes se chegassem a esse destino e deparassem com uma situação equivalente à de Alfama: as magníficas portas de madeira trabalhada substituídas por outras de alumínio e as escultóricas formas orgânicas do casario pintadas de cal em branco e azul-cobalto, cimentadas, alisadas em linhas direitas e rígidas e cobertas pela artificialidade das pastosas tintas industriais com cores da paleta Disney. Seguramente ululariam de indignação, de tristeza e de revolta.

Ainda não há muitos anos, no Alentejo e no Algarve existia um número considerável de pequenas Chefchaouen, que entretanto desapareceram num processo de extinção implacável.

Em Lisboa, Alfama com a sua medina era a nossa exótica Chefchaouen, onde apetecia efabular um “Oriente ao oriente do Oriente” (Fernando Pessoa), evocar tempos antanhos e perder-nos docemente no labirinto de becos, escadarias, arcos, pátios e castiços gentios. Algo impossível actualmente, onde o Airbnb, os turistas low cost, as ruas vazias de autóctones e a arquitectura abastardada, estilhaçam qualquer sonho ou devaneio, despertando-nos compulsivamente para a exigência liminar da facturação, da rentabilidade e da competitividade.

O Mono do Rato, o edifício contemporâneo projectado para a Praça das Flores, a singular moradia setecentista demolida na Lapa, o museu judaico que se perspectiva na principal praça de Alfama, a Casa de Almeida Garrett que foi ignobilmente demolida, são algumas contas de um rosário tétrico e infindável que estende os seus tentáculos por toda a cidade, nomeadamente nas avenidas novas e na frente ribeirinha (cada vez mais envidraçada), ameaçando os alicerces da “cidade simbólica da humanidade” .

Clara Ferreira Alves defendeu no dito programa que a construção em altura em Lisboa teria sido uma opção acertada no passado, pois isso teria facilitado as soluções para os complicados problemas da habitação. Ao defender tal cenário a comentadora ignorou o facto de que um dos factores mais expressivo e identitário do carácter da cidade de Lisboa é o contorno único do seu perfil que se recorta numa elegante silhueta contra o céu, mutável em função do ponto de observação, mas sempre delimitando um corpo urbano horizontalizado que se desenvolve em volumes de complexas sobreposições, descaindo em suave anfiteatro até às mansas águas do Tejo. Há uns anos um arquitecto paisagista, de que me não recordo o nome, destacou este valor essencial da cidade, defendendo publicamente a demolição, a bem do resgate da pureza do perfil de Lisboa, de todos os prédios que recentemente, devido à sua altura excessiva, estavam a desarmonizar e corromper tal linha de contorno. Esperemos que a Lisboa não aconteça o mesmo que a Jerusalém e a Istambul, também duas cidades paradigmáticas, cujas silhuetas foram destroçadas por arranha-céus desmedidos.

O Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago, pode constituir uma certeira metáfora para uma população que se especializou em olhar o ecrã, mas que perdeu a capacidade de olhar o mundo à volta, nomeadamente ver o que está bem e o que está mal no espaço e na arquitectura de Lisboa.


Artista plástico; membro do Fórum Cidadania Lx

07/05/2018

Casa de Igrejas Caeiro - Declarações estapafúrdias de Isaltino de Morais - Esclarecimento


Igrejas Caeiro junto ao painel "Teatro" de Maria Keil, 1959. Fotografia Daniel Rocha, 2012 | Público
Aspecto exterior da casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, projecto de 1958. Fotografia FMP


NOTA BENE:

No programa do Provedor do Ouvinte “Em Nome do Ouvinte”, transmitido no passado dia 4, na Antena 1, cujo conteúdo esteve relacionado com a Casa de Igrejas Caeiro, deixada por testamento à Fundação Marquês de Pombal (https://www.rtp.pt/play/p3388/e344860/em-nome-do-ouvinte-o-programa-do-provedor-do-ouvinte-v-serie), e cujo assunto, causado pela falta de cumprimento da vontade testamentária de Igrejas Caeiro, havia causado uma queixa, em 19 de Março, ao Ministério Público, por parte de um grupo de 19 cidadãos, vem agora o presidente da Fundação Marquês de Pombal, sr. Isaltino Morais, afirmar nas declarações prestados no programa acima referido, que a queixa ao MP foi feita por um “grupo de pessoas que pretendiam usurpar a residência e instalar nela uma estação de rádio ficando a fundação a pagar a essa gente €80 000 mensais”. Afirmou ainda o senhor presidente que esse grupo de pessoas fez várias propostas nesse sentido e a uma pergunta do Senhor Provedor do Ouvinte, afirmou que essas propostas foram assinadas pelas mesmas pessoas que apresentaram a queixa ao MP.

A queixa ao MP foi apresentada por um conjunto de pessoas em nome do Fórum Cidadania Lx (http://cidadanialx.blogspot.pt/2018/03/casa-de-igrejas-caeiro-oeiras-queixa-ao.html), e foi a única vez até hoje que este movimento se pronunciou ou participou em qualquer iniciativa relativamente a este assunto, pelo que o sr. Isaltino Morais está equivocado.

Reafirmamos a evidência: a única intenção das pessoas que apresentaram a queixa ao MP foi a defesa do cumprimento das vontades deixadas por Igrejas Caeiro em testamento, e o manifesto descontentamento com a transformação da casa em alojamento local e a dispersão do vasto e rico espólio deixado pelo testador. Afirmamos, pois, que as declarações prestadas pelo sr. Isaltino Morais são destituídas de qualquer verdade.