03/01/2016

A Rua Augusta é cada vez mais o reino das marcas mais agressivas. Iguais em todo o lado e por todo o lado igualmente banais e repetitivas.







A Rua Augusta é hoje  vítima da vulgarização do comércio, da atávica inépcia da CML em estipular orientações, de uma lei de arrendamento que não favorece o comércio tradicional. É arrepiante assistir ao fecho constante de lojas mais do que emblemáticas por toda a cidade, sendo o último o trágico encerramento do Palmeira na R. do Curcifixo.

Hoje o que os turistas vêem é uma cidade em franca perda de identidade e de carisma. Lisboa banaliza-se a olhos vistos e poucos são os que se importam. Afirmam muitos que cabe ao comércio tradicional reinventar-se, sim até pode ser verdade. Mas o que as imagens mostram é a mesma invenção em Lisboa e em todo o lado do mundo.

Um Mac Donald's é igual em Lisboa, Tóquio ou Barcelona. A Pull & Bear não prima pela originalidade das suas mega-lojas, iguais em toda a parte do Chiado à Rue Neuve em Bruxelas. O cenário é cada vez mais o mesmo num tédio confrangedor e mortal para cidades como Lisboa. Sabemos que o programa da CML "Lojas com História" está morto e apagado, sabemos que as lojas são despejadas para instalar hotéis em vez de neles serem integradas, sabemos que os preços pedidos são incompatíveis com a presença das lojas centenárias. Sabemos tudo isto e muito mais, mas a tendência que aponta para a extinção do comércio tradicional lisboeta, é um verdadeiro rolo compressor que condena para sempre a diversidade, substituindo-a por cadeias iguais em todo o lado.

As cidades devem valorizar e promover o que as torna únicas. Com as questionáveis escolhas deste executivo, nem a célebre luz de Lisboa chegará para a salvar da banalização aterradora de que está a ser alvo.




11 comentários:

Anónimo disse...

Estas lojas de que fala não interessam a públicos do século XXI e não venha dizer que são as pessoas é que são ignorantes porque não lá entram. O vintage está na moda como nunca esteve, caso não tenha reparado, lojas "a vida portuguesa" estão cheias ao fim de semana. Mas é preciso orientação e estratégia. Os comerciantes tradicionais em questão não querem sequer ouvir falar de qualquer conceito de modernização ou actualização dos negócios que possuem há décadas. As lojas são hostis a públicos que não os habituais. Os artigos que vendem são de interesse limitado a um nicho e com preços impossíveis de comparar com as grandes superfícies. A teimosia destes mesmos comerciantes em não aceitar que coisas básicas como iluminação, climatização, decoração e atendimento são fulcrais para o sucesso de qualquer estabelecimento acompanha-os até à campa. Antes culpam o "grande público", os "chineses" ou outra coisa qualquer. Podem continuar a culpar o progresso (esse demónio) e a reivindicar "apoios" como se fosse só pedir, mas não são essas lojas tradicionais as responsáveis pelo magote de gente que felizmente povoa de novo a baixa e o chiado. Há 20 / 30 anos, quando a oferta de comércio era maioritariamente tradicional, o cenário ao fim de semana era deprimente. As pessoas debandaram para os centros comerciais. A reabilitação do Chiado e a instalação do metro, por mais trágicas que tenham sido as causas, trouxe vida e gente a uma zona que estava morta mesmo antes do incêndio. Se hoje em dia, fruto da modernização do comércio, as lojas ditas tradicionais não sabem aproveitar o volume de pessoas que regressou ao centro da cidade e que lhes passa de novo à porta, então não culpem o transeunte por não estar interessado em artigos de retrosaria.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

É uma opinião. A sua. A marca das lojas de tradição é muito importante. de tal forma que os critérios para a receber são muito exigentes. Neles entra a forma como o atendimento e feito.

E o público procura outro tipo de lojas que não as da indiferença geral com que as pessoas encaram as mudanças da cidade. Pelo menos no Porto o presidente da ACP afirma que enquanto em Lisboa fecham duas por mês, no Porto mantêm-se ou reabrem mantendo a decoração original.

Nada contra a animação do Chiado e da Baixa. Quando percebermos que os turistas já não comprarão gato por lebre, que já não cairão no engodo de uma cidade que "soube aliar a tradição à modernidade" como gosta de dizer a ATL e outros com a mesma categoria, ficaremos muito felizes e cheios de Zaras, Starbucks, MDONald's e quejandos. Muito modernos e desenvolvidos, iguais aos franceses, ingleses e alemães que antes nos procuravam pela diferença que entretanto, na apatia geral e costumeira, desapareceu.

JOÃO BARRETA disse...

E para quando "apresentar" o projeto (quiçá, possa extravasar Lisboa) das "Lojas de Tradição", "Lojas com História", à "nova" tutela do Comércio?
Será nesta fase que "as tutelas" procuram ideias, projetos, enfim ... algo "para fazer", algo de palpável para comPROMETER, !!!!!!

Anónimo disse...

O ilustre fala como se outrora Lisboa outrora fosse um destino turístico perfeito (ou seja sem turistas) e hoje não, e que esses mesmos turistas (os que cá não vinham) já "não caem no engodo", quando todos sabem que Lisboa nunca foi tão visitada e reconhecida como agora.

"Franceses, ingleses e alemães que antes nos procuravam pela diferença que entretanto, na apatia geral e costumeira, desapareceu." - Que nos procuravam quando? Na altura em que ninguém sabia onde ficava Portugal? Onde era preciso passar a noite em pensões nojentas porque o conceito de "hostel" era uma estrangeirada que só resultava em Amesterdão? Onde ir ao restaurante "típico e genuíno" era ser atendido por infoexcluídos em inglês? Onde apanhar o táxi no aeroporto era uma garantia de roubo? E que diferença procuravam eles? A dos edifícios podres? A das ruas desertas? A dos estabelecimentos decrépitos? A do terceiro mundo em comparação com os locais civilizados de onde vinham? Porque sim, aí tem razão, a diferença era gritante e ficava a duas horas de avião.

Porque é que não admite logo que para si há turistas de primeira e turistas de segunda, sendo que os "de primeira" constituem um punhado de selectos cidadãos sem mácula que apreciavam Lisboa pelo que ela era - pobre mas honrada, triste mas genuína, decrépita mas verdadeira. Um pouco como ir a Marraquexe e respirar um pouco de terceiro mundismo para poupar dinheiro e contar histórias à família. De facto é bem melhor ter cidades caladinhas, quietinhas, desertas e atrasadas. Nesse aspecto perdemos terreno para os Açores.

Filipe Melo Sousa disse...

Antes as marcas que os azulejos foleiros. Deixem a cidade viver em paz

Pedro Vaz disse...

Não podia estar mais de acordo,a baixa estava simplesmente degrada com o comercio existente,hoje vêem se tanto turistas como locais,ao fim de semana ou durante a semana. Está uma zona com vida e existem muito mais lojas na baixa do que aquelas aqui mencionadas.

Pedro Vaz disse...

Este anónimo devia ir para a CML,têm toda a razão naquilo que diz,consegue sem dúvida colocar os pontos nos i's

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Reagindo a Pedro Vaz (a quem muito agradeço ter-se identificado. É sempre muito mais agradável saber que há um nome por detrás dos comentários) e ao anónimo que deveria ir para a CML e que felizmente não irá (espero),

O problema é sempre o mesmo, o excesso, a uniformização, a banalização (até a Time Out num dos seus recentes números faz a necrologia das lojas tradicionais fechadas este ano) da cidade.

É óbvio que os turistas procuram Lisboa pelo que ela é e não por ser uma cidade igual às outras. Há um certo atavismo em confundir revitalização com trivialização que é, em grande medida o que acontece na Baixa (se não fosse o desnorte na destruição paulatina dos interiores pombalinos, das fachadas de época, das águas-furtadas, do encerramento do comércio tradicional, da invasão de esplanadas sem qualquer qualidade e mais um enorme etc, a candidatura à UNESCO sonhada por Pedro Santana Lopes não teria caído neste executivo).

Os srs. comentadores poderão achar que a malta aqui do burgo é toda bota-abaixo, poderão pensar o que quiserem nas suas doutas inferências (do género: turistas de 1ª e de 2ª, numa absurda categorização que seria obrigado em admitir, quando o que defendo está nos antípodas dessa ou de quaisquer outras divisões).

Digo só que entre um parque temático cheio de prédios à la mode do pastel de Bacalhau com queijo da serra, suprema imagem da renovação da Baixa e da animação tão aplaudida e o justo equilíbrio entre a permanência e incentivo ao comércio tradicional, vai a diferença entre uma cidade que se adapta não perdendo as suas caracteristicas e uma que se vende aos ventos do momento e às teses fáceis do turismo de milhões.

Uma cidade não é um fóssil mas também não tem que ser um cena´rio de plástico igual em todo o mundo.

E sim, já muitos que nos procuravam (não nos idos de '70,'80 e qujandos) que referem que Lisboa está gradualmente a perder o que a tornava única e singular, justamente essa presemnça simultânea entre o tradicional e o comércio de grandes cadeias, optando por uma yrágica unifromização que afinal parece agradar tanto aos ilustres comentadores.

Que gostem de ver toda a cidade comercial como um mega Colombo, é um direito que lhes assiste. Por cá, lutaremos sempre por uma cidade que não seja só para os que gostam de enchentes e de animação de feira, mas que corresponda ao evidente carácter ímpar de Lisboa.



Pedro Vaz disse...

Boas caro Miguel, também concordo com muito daquilo que diz,incluindo o comentário a Pedro Santana Lopes,mas basta andar um pouco mais para o lado e ver muitas novas lojas de comércio tradicional.
Basta ir à rua Bacalhoeiros, à rua da Conceição ou à rua da Madalena só como exemplo. Se podiam ser mais? Sim podiam mas temos que nos lembrar que muitas das antigas lojas fecharam por falta de clientes e não poe vontade da Câmara ou por capricho.

Anónimo disse...

O meu único problema com esse tal "carácter ímpar" de lisboa é que o mesmo compreende uma vida em cidade que muito tem que evoluir. Só porque é o original não significa que tem qualidade. Por cá, qualquer habilidoso tem um café, qualquer possuidor de luzes de néon e plástico abre uma loja, qualquer rua deserta é para vandalizar, qualquer beco serve para conspurcar, qualquer item deixado na via pública é para roubar ou destruir, qualquer passeio é para cuspir e tantas outras coisas que, sabemos bem, caracterizam a vivência em Lisboa por parte dos seus cidadãos e não venha dizer que são os jovens ou os marginais porque é mentira. É o que conheço e lamento de andar nesta cidade há várias décadas. Temos de ser ensinados a viver de outra forma. As pessoas têm que ganhar outros hábitos de civismo. Um prédio devoluto é rapidamente ocupado pela destruição, grafitti e sem abrigo, seja onde ele for (vá ver o Pavilhão de Portugal). Se para impedir esse e outros cenários terceiro mundistas for preciso um Starbucks, sou totalmente a favor, mesmo que não seja cliente.

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Reagindo a Pedro Vaz e ao anónimo das 10.31 da manhã

Agradeço os comentários. Ao fim e ao cabo nas suas linhas gerais estamos de acordo. Sim, o comércio tradicional foi desaparecendo por falta de clientela e sim devemos aprender a estimar Lisboa, estima que deve vir em primeiro lugar por parte dos seus cidadãos.

Continuem a reagir e a comentar os nossos posts. É sempre importante para nós. Da minha parte, respondo sempre, desde que os mesmos não sejam insultuosos e tenham conteúdo.

Seremos sempre exigentes coma CML, DGPCe outras instâncias. às vezes só o peso institucional pode mudar as coisas para melhor.