16/12/2014

Lisboa perde em todas as frentes

Estrasburgo, avenidas inteiras com o património Entre-Séculos preservado e valorizado.

Lisboa, avenidas inteiras com o património Enre-Séculos destruído, adulterado, esventrado, em ruínas. O reino do espelhado e da arquitectura banal é a imagem de marca de Lisboa.

Estrasburgo, quarteirões inteiros  com o património fin-de-siècle habitado, vivido, mantido. De portas a janelas, de jardins a ferragens, nada é deitado fora. A cidade ganha todos os dias.

Lisboa, quarteirões inteiros fin-de-siècle, rebentados,  estropiados, seguros por garras de ferro. Nada se preserva, logradouros que são betumizados, ferragens, portas, janelas, interiores com estuque, mosaicos, vitrais, madeiras exóticas, estatuária, tudo é sacrificado. A política de terra-queimada desta vereação, e de outras, tem vindo a descaracterizar Lisboa de uma forma leviana e catastrófica. Lisboa perde todos os dias.

Estrasburgo, grandes prédios salvos na íntegra, comtinuam a espantar pela positiva os visitantes e os residentes. A terciarização da cidade não foi sinónimo da sua destruição.

Lisboa, prédios inteiros convertidos em imagens ridiculas de uma associação entre novo e antigo tão pueril como nefasta para a cidade. A mais "bela" avenida de Lisboa não é hoje mais do que um aglomerado urbano disforme e incaracterístico. Que se aplaudam as escolhas da CML.  A terciarização selvagem da cidade roubou-lhe para semrpe o brilho e a harmonia.

Estrasburgo, moradia entre-séculos. Fachada que continua a fazer parte do legado da cidade. Dos mosaicos às janelas, nada foi alterado de forma invasiva e destruidora.

Lisboa, moradia entre-séculos destruída pela incúria, pela visão imediatista, eleitoralista e de curto prazo, com que se regem os destinos de Lisboa Desta e de dezenas de outras casas, nada sobrou.
Estrasburgo, prédio entre-séculos a ser restaurado. nada de cabeçudos, de levantamento imbecil de cérceas, de edificíos engolidos por outros numa perversão arquitectónica degradante e insuportável .

Lisboa, edifício intervencionado e destruído. Um dos grandes da rua Braancamp perdido para sempre. Esta imagem traduz o vasto campo de indigência urbana em que Lisboa se tem vindo a transformar. 

Estrasburgo, casa do século XVIII com mansardas preservadas. nenhuma casa do centro histórico pode ser desvirtuada de forma definitiva.

Lisboa, prédio pombalino cujas mansardas foram abatidas na sua totalidade. Aqui, nesta cidade, o centro histórico pode ser vítima de qualquer oportunismo político ao qual se associam e do qual dependem interesses de promotores vários. Afinal nada que nos espante. tem sido assim ao longo dos últimos anos. Dada a ausência de uma opinião pública crítica e de círculos de poder confrangedores, teme-se o pior para Lisboa.

Estrasburgo, tela que cobre o restauro de parte da fachada da catedral. Basta ver o exemplo das telas publicitárias em Lisboa para ver a descomunal diferença entre a legítima divulgação dos patrocinadores e a transformação da cidade num palco de anúncios de todo o tipo de marcas. Tanto melhor será o patrocinador, quanto menos publicidade exigir como contrapartida. Em Lisboa, o circo a que estamos sujeitos diariamente é de um penoso ridículo.

Em Lisboa é voz corrente que diz que a estrutura gaioleira é impeditiva de uma intervenção que permita a manutenção do pré-existente. Com essa desculpa têm-se vindo a cometer os maiores crimes na recuperação/reabilitação/destruição. Dizem os senhores engenheiros e promotores, que os prédios não aguentam. Pois em Estrasburgo, estas casas (são às centenas, muitas dos séculos XVII e XVIII) obedecem a uma construção em "colombage" muito próxima da gaiola pombalina. Nenhuma foi destruída. Constituem no seu conjunto a imagem de marca da cidade e deram a Estrasburgo o passaporte para que a capital da Alsácia visse o seu centro histórico inscrito na lista de Património da Humanidade. Esta defesa integral do património é uma noção absolutamente estranha às mentes dos decisores, do público e de todos os que intervêm no espaço de Lisboa.

Estrasbugo, palácio Rohan, magníficamente salvaguardado. Notável residência aristocrática, continua a pontificar no retrato urbano da cidade. 

Lisboa, palácio Ribeira Grande, notável residência aristocrática do séc. XVIII aviltada, entaipada, grafitada. Como esta, há dezenas em Lisboa. Ninguém se importa que o património de Lisboa seja tratado desta forma que, afinal, tem tudo de provinciano, mesquinho e nada de ousado e coerente.

Estrasburgo, fachada tardoz do palácio Rohan.

Lisboa, fachada tardoz do Palácio Nacional da Ajuda.

Desta comparação rápida, comprova-se que Lisboa está a entrar numa fase irreversível da preservação, valorização e defesa do seu riquíssimo património. O estado de incúria é tal, que afirmar que se está perante um estado de calamidade pública não é demais. O argumento económico não pode ser aventado. Estrasburgo sofreu duas guerras, as dificulades do país são grandes. As grandes escolhas é que são diferentes. Em vez de defenderem uma sujeição a todos os interesses, as autoridades estipulam as linhas de orientação do desenvolviemnto urbano, da manutenção e defesa do património histórico: Ousam dizer o que se pode ou não fazer. Em Lisboa é todo o contrário. Primeiro servir todos os outros interesses, depois pensar a cidade.

Afinal a imagem exterior de uma cidade não é mais do que a soma das decisões dos orgãos que a gerem e da exigência que os cidadãos sobre eles fazem recair. Nada que em Lisboa aconteça com frequência.  

15 comentários:

Paulo Ferrero disse...

Belo post, ou melhor, awesome and terrific post :-)

Julio Amorim disse...

Gostei particularmente do atestados de incompetência na comparação com a gaiola pombalina....

A. M.C. disse...

Ando neste momento à procura de um edifício para recuperar e morar e o que tenho visto é de bradar aos céus. O que ouço dos proprietário e agentes imobiliários demonstra que somos pequenos, ignorantes e não temos emenda. Acabei de chegar de Munique, a minha segunda cidade por razões familiares, e só tenho de me envergonhar porque a capital de Portugal é uma autêntica favela se comparada com essa cidade alemã. Estava tão desabituado que hoje caí numa caldeira vazia porque estava a olhar... para o lado! Imagine-se a minha ousadia, não olhar para o chão enquanto ando!! Por favor, e este homem que se diz presidente quer ser Primeiro Ministro!

Anónimo disse...

E podem ter a certeza que o imóvel da último foto (perdão, queria dizer "monumento") já está a ser preparado para ser chungado e descaracterizado pelos "melhores arquitectos do mundo" não é sr. manue l xalgado?

Anónimo disse...

Excelente e (terrível) post!

Pena que os canais televisivos não comecem a fazer reportagens sobre este assunto, ao invés só nos atiram lixo para os olhos.

Paulo disse...

Toda a gente sabe que Estrasburgo é o reino das rendas congeladas. E a burocracia nos licenciamentos é pior que a nossa. A justiça lá também demora décadas a resolver os problemas relacionados com terrenos e heranças.

Anónimo disse...

O que não nos faltou foram edifícios igualmente majestosos:

Para a 1º foto arranjo esta foto de um troço da Rua Pascoal de Mello que era composta por uma série deles (desafio quem não vive em Lisboa, e quem a desconhece, a fazer uma visita ao google maps e ver com os seus próprios olhos como é que aquela rua está agora - não se assustem):

http://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/udc0533f9/8074635_NwT8a.jpeg


Para a 3ª, arranjo o edifício do anjo:

http://lisboahojeeontem.blogspot.pt/2012/10/avenida-fontes-pereira-de-melo-saldanha.html


Para a 5ª, o imponente edifício que ficava no gaveto da Fontes Pereira com a António Serpa:

http://carmoeatrindade.blogspot.pt/2007/04/sem-palavras.html


Para a 6ª o antigo Teatro Apollo:

http://www.caravelas.com.pt/Lisboa_T_Apolo.jpg


E por ai adiante; enfim...

Só para depois não aparecerem por aqui(blog) certas personagens a tentar levar a cabo lavagens cerebrais aos mais incautos, afirmando que nunca tivemos nada parecido com os exemplos de Estrasburgo!

Anónimo disse...

comparação muito imparcial. vamos comparar o bom com o bom, e o mau com o mau...

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

reagindo ao anónimo das 10.55

O que está escrito é absolutamente objectivo. Em Estrasburgo tb há casos graves, como em todas as cidades, a diferença é que são limitadas em número e não destruíram a imagem da cidade para sempre.

Lisboa admite a política das demolições de todo o património entre-séculos. è uma hecatombe. Dizer que se deve comparar o bom com o bom e o mau com o mau, é não quere encarar de frente a destruição irreversível do património lisboeta

Mário Gomes disse...

Talvez não se tenham dado conta, mas em Estrasburgo não há sismos. Em Lisboa, o património "entre séculos" é perigosíssimo! Portanto, sim, devem ser substituídos por edifícios seguros.

Anónimo disse...

Caro Mário Gomes,

a grande parte da Itália é sismica mas não os leva a demolir edifícios antigos, pois não? Antes pelo contrário, lá preserva-se como nunca se faz aqui. Pare com esse argumento que é desculpa de consciência pesada para a falta de cultura, espírito pobre e desleixo.

Anónimo disse...

O comentário do Mário Gomes é brutal..

Faz com que todos os profissionais (por esse mundo fora) do sector de reabilitação estrutural de edificios antigos, corem de vergonha.

O último a sair que feche a porta!

Este país já era!

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

Em Nápoles, bem mais sísmica do que esta cidade em falência, não vi nada que se comparasse com esta destruição em massa que acontece ao edificado histórico de Lisboa.

Anónimo disse...

Eu acho divertido que estejamos sempre a comparar-nos com sitios como Estrasburgo... capital do despesismo europeista! Porque e que nao nos compara com Luanda? Esta vontade de bater o peito do "bom portugues" e afinal uma maravilhosa desculpa a "culpabilizacao do alguem", do responsavel por tudo isto, do outro vago... o DDT ja foi! Quem e que tem a culpa "disto" agora?

Miguel de Sepúlveda Velloso disse...

reagindo ao anónimo das 10.16

É sua, é minha, é dos políticos é de todos e de ninguém em particualr, à parte todos aqueles que podem exigir e não exigem, podem decidir para melhor e não decidem.

Luanda??? Sim que se compare uma cidade com dois mil e anos de histórioa com uma com cerca de 300. faz sentido, até pelo clima