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30/12/2011

Atelier-Museu Júlio Pomar foi prometido há onze anos e obras continuam por acabar

In Público (29/12/2011)
Por Fábio Rodrigues


«Abertura do atelier-museu Júlio Pomar ainda não tem data prevista (Adriano Miranda/arquivo)


Edifício comprado pela Câmara de Lisboa em 2000 tem as obras paradas e a Polícia Municipal guarda-o dia e noite. Autarquia nada diz. Fundação Júlio Pomar espera conclusão em breve.

Quem sobe a Rua do Vale, perto de São Bento, vê a igreja paroquial das Mercês perfeitamente recortada no topo do declive. Contudo, desde o início de Novembro um outro elemento se adicionou ao quadro: um carro da Polícia Municipal, estacionado religiosamente em frente à igreja, no Largo de Jesus. A viatura marca presença diária, noite e dia, garantem os moradores, sem que ninguém tenha a certeza de qual a sua missão.

A presença da autoridade relaciona-se com um edifício em particular - o número 7 da Rua do Vale. O imóvel, um antigo armazém datado do século XVII, foi adquirido pela Câmara de Lisboa por 575 mil euros há cerca de 11 anos. O objectivo era a sua recuperação para ali instalar o atelier-museu do pintor Júlio Pomar, conforme foi deliberado pela assembleia municipal em Setembro de 2000, quando João Soares era presidente da câmara. Onze anos depois, o museu continua com as portas por abrir e com sinais de obras no interior.

Uma viatura da Polícia Municipal passou a ser observada na área, a partir do início de Novembro. O presidente da Junta de Freguesia das Mercês, Alberto Bento, conta que uma queixa sua pode ter originado essa situação. "No final de Outubro, a empresa encarregada da empreitada retirou os andaimes, deixando resíduos na via. A junta comunicou a situação à câmara, informando também que um dos moradores tinha avistado um indivíduo a rondar a casa durante a noite", afirma. Poucos dias depois, a rua foi limpa e a presença da polícia tornou-se habitual.

A obra, projectada por Siza Vieira, foi adjudicada à Edificadora Luz e Alves em Dezembro de 2006 e arrancou passados quatro meses. Depois de anos marcados por sucessivas paragens nos trabalhos, a empresa retirou-se do local no final de Outubro deste ano. Porém, a obra já estava parada há vários meses e, durante esse tempo, era um funcionário da empresa que guardava o imóvel. Segundo o técnico da empresa que dirigiu a obra, Marco Carapeto, esta foi marcada por atrasos sucessivos, relacionados com a complexidade do trabalho e com faltas de pagamento. No final de Outubro deste ano, a Luz e Alves entendeu que estava "terminada a sua ligação à obra" e retirou-se do local, não tendo ainda chegado a acordo com o município sobre os pagamentos em falta. Contactada pelo PÚBLICO, a câmara nada disse.

Logo em 2000, a câmara decidiu que o espaço seria utilizado vitaliciamente por Júlio Pomar como atelier. Estabelecido ficou também que quando o pintor cessasse a sua actividade no edifício, este seria convertido em atelier-museu. O pintor já não irá, contudo, utilizar o espaço, que servirá apenas na sua vertente museológica. "A ideia de um atelier teve sentido quando surgiu, mas passado tanto tempo, não é a melhor opção", afirma Júlio Pomar. O artista, com 85 anos, diz estar habituado ao seu espaço de trabalho e explica: "Já não tenho idade para grandes cavalgadas".

De acordo com Alexandre Pomar, filho do pintor e administrador da Fundação Júlio Pomar, o espaço será "incluído na rede museológica municipal e gerido pela câmara". A fundação, criada inicialmente como parte deste projecto, "assumirá um papel de colaboração e de gestão dos direitos de autor". Segundo Júlio Pomar, a designação de atelier será mantida. "O espaço é pequeno, seria despropositado chamar-lhe museu."

Apesar da paragem das obras, a câmara gastou já este ano cerca de 200.000 euros na aquisição de equipamentos e móveis destinados ao museu. Segundo Alexandre Pomar, a abertura do espaço poderá estar para breve. "Em reuniões com a câmara foi-nos comunicado que será realizada uma empreitada final para acabamentos no início de 2012".

Júlio Pomar, por seu lado, classifica os atrasos como "dificilmente evitáveis", acrescentando acreditar que a câmara abrirá brevemente o espaço: "Acredito que no próximo ano já estará a funcionar".»

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