03/07/2013

O novo Museu dos Coches afinal "foi um erro". Como pode ser então minorado ?

Segundo dizemos jornais, o actual Secretário de Estado da Cultura (SEC) disse ontem perante a Comissão de Ciência, Educação e Cultura da Assembleia da República que a decisão de construção do novo Museu Nacional dos Coches "foi um erro” e que "gostaria que estes 35 milhões de euros tivessem sido gastos de outra forma.”
Ainda assim, informou que em face da situação criada propôs ao Governo a afectação das verbas necessárias para concluir o processo de instalação das colecções no local – o que fora aprovado no último Conselho de Ministros (último até hoje e quem sabe se último mesmo na vigência plena deste Governo). Disse ainda algo intrigante e por certo bastante preocupante: que não sabe como garantir o subsequente funcionamento normal do museu, que terá custos insuportáveis para o orçamento da Cultura.

Em face disto apetece-me comentar e recordar:

1 – Que bom seria se o nossos governantes tivessem a sabedoria de ouvir em devido tempo os técnicos e os cidadãos em geral que intervém no debate de projectos que entendem promover, especialmente quando os mesmos suscitam tão grande oposição; não me consola em nada “ter razão antes de tempo”; preferia mil vezes sentir que vivo num país democrático, onde os valores de participação cidadã na “coisa pública” são incentivados e efectivamente tidos em conta;

2 – Admito que seja já demasiado tarde para reverter todo processo, fazendo implodir o edifício – como em todo o caso apeteceria fazer; mas não percebo porque se há-de insistir em “bater com a cabeça na parede”, sem cuidar de saber dos custos subsequentes de manutenção;

3 – Acrescem as questões de fundo, ou seja, o planeamento estratégico para o parque de museus nacionais portugueses e, em especial, para a zona monumental de Belém; neste quadro, nada continua a justificar que o novo edifício seja inteiramente consagrado a museu dos coches;

4 – Sendo assim, recordo a proposta que, em  Fevereiro de 2009, fiz conjuntamente com a Profa. Raquel Henriques da Silva para resolver o “imbróglio dos coches” (abaixo reproduzida); dessa proposta, algumas medidas estão hoje ultrapassadas (felizmente a ideia serôdia, com muitas barbas, da transferência do Museu Nacional de Arqueologia para a Cordoaria nacional foi abandonada e espero que não regresse, pelo menos na nossa geração); mas a solução apresentada para o novo complexo edificado mantém toda a actualidade: reservar um sector, menor, para extensão do Museu Nacional dos Coches e dedicar o volume principal à instalação de conteúdo museológico que faz efectivamente falta no País e em Belém: um Museu da Viagem, um espaço em que se conte a história da relação de Portugal com o Mundo, desde a fundação da nacionalidade até aos tempos recentes, fazendo muito mais uso de novas tecnologias da imagem e do 
som do que de peças autênticas á integradas noutros museus.

Será que alguma vez quem decide vai ouvir as propostas que de boa fé lhe são apresentadas em tempo oportuno ? Ou andaremos sempre a correr atrás do prejuízo ?

Luís Raposo


Quatro medidas para ultrapassar o imbróglio do novo Museu dos Coches e fazer dele uma oportunidade de futuro:


1. Levantamento do parque museológico e monumental da zona de Belém (da Torre de Belém à Cordoaria Nacional), detectando virtualidades, abandonos, eventuais lacunas e elaborando um plano integrado de valorização de cada peça e do conjunto;

2. Em relação ao conjunto, adopção de medidas potenciadoras dos circuitos integrados, em domínios tais como percursos pedonais, bilheterias comuns, programação, promoção e merchandising articulados, parqueamentos de viaturas, navette de ligação gratuita, mediante a apresentação de títulos de entrada em museus ou monumentos;

3. Em relação a peças individuais:

a. Reabertura do Museu de Arte Popular no seu lugar próprio, devidamente modernizado, mas respeitando a colecção e o conceito original;

b. Dinamização do Museu Nacional de Etnologia, promovendo o acesso ao mesmo pela sua inclusão na rede assim definida;

c. Ampliação do Museu de Marinha em dois sentidos: para os terrenos disponíveis a poente das instalações actuais e para a Cordoaria Nacional, onde deverão também ser colocados o
Arquivos Histórico e a Biblioteca Central de Marinha, retirando-a dos Jerónimos e demolindo o edifício onde se situa, o qual constitui um verdadeiro atentado ao espírito daquele lugar;

d. Ampliação do Museu Nacional de Arqueologia no Mosteiro dos Jerónimos, retomando os projectos já existentes para o efeito e adaptando-os agora às possibilidades que se abririam com a transferência para a Cordoaria Nacional da Biblioteca Central de Marinha e, eventualmente, de algumas áreas ocupadas presentemente pelo Museu de Marinha;

e. Manutenção do conjunto mais emblemático de coches nas instalações actuais do Museu Nacional dos Coches, iniciando imediatamente um programa urgente do seu restauro;

f. Criação na Cordoaria Nacional de um centro museológico industrial-naval e de arqueologia subaquática, explorando as ligações ao rio Tejo, onde, em posição fronteira, deverá ser criada um cais para acostagem e visita a navios históricos, em ligação com o referido núcleo museológico;

4. Finalmente, quanto à intenção de construção de um novo Museu Nacional dos Coches, no caso de não ser considerada possível a sua total reversibilidade (o que idealmente mantemos como desejável) e dando por adquirido nas suas linhas gerais o projecto de arquitectura já existente, adopção das seguintes medidas:

a. Afectação ao Museu Nacional dos Coches, para instalação de serviços e ampliação dos espaços expositivos, da construção anexa ao edifício principal, situada em frente do referido
Museu;

b. Instalação no edifico principal de um novo museu, cuja necessidade se faça sentir depois do levantamento indicado no ponto 1. Os critérios de escolha para o efeito deverão privilegiar conteúdos susceptíveis de constituírem uma poderosa mais-valia para a promoção dos fluxos turísticos (nacionais e internacionais) na zona de Belém, servidos por tecnologia de última geração e não tanto por colecções patrimoniais intrinsecamente únicas. Entre outras possíveis ideias, avançamos desde já com a de um Museu da Viagem, capaz de evocar a diáspora portuguesa em toda a sua extensão temporal, nomeadamente deste a chamada Epopeia dos Descobrimentos (colocando em relevo os aspectos antropológicos do contacto com o “outro” e a dimensão técnica e científica da época) até à gesta das viagens da emigração dos séculos XIX e XX.

6 comentários:

Henrique Pereira disse...

Por muito que eu aprecie os trabalhos do Sr. Luís Raposo e da Prof. Henriques da Silva, (e aprecio muito) não posso deixar de discordar dessa ideia do museu da viagem. Na minha opinião o que é necessário é reformar o Museu de Marinha pois este é que deveria servir de base a um museu da Viagem/descobrimentos! Na minha opinião a cordoaria é que deveria ser esse museu de Marinha e da Viagem/Descobrimentos! Se é que nos tempos que correm realmente vale a pena fazer mais museus quando nem há recursos para manter condignamente os existentes!
Quanto ao Museu dos Coches, acho que o que há a fazer é transferir para lá os Coches, publicitar o museu, de uma forma moderna, não do modo amorfo em que tem estado a ser gerido durante estes anos... pode ser que assim os visitantes surjam e se consiga minimizar os custos de funcionamento de um edifício tão grande! Poderiam começar por divulgar o museu no google art! Quanto mais divulgados os museus e os seus conteúdos maior interesse se despertará nas pessoas. Agora com museus adormecidos e que apenas se divulgam via facebook (o que ainda assim foi uma revolução na museologia portuguesa que se encontra fechada sobre si mesma, como se os museus existissem apenas para servir quem lá trabalha e não o público, uma visão que infelizmente ainda se mantém em muitas instituições e de que a ideia de retirar as mísera 4 horas semanais de entrada gratuita é o sinal mais lamentável e alarmante.

Henrique Pereira

Anónimo disse...

Ok...já sabemos o que acontecerá...nada. Vai ficar fechado a deteriorar-se, até que uma cabecinha pensante se lembre de "agarrar" uma dessas boas ideias...Veremos!

Anónimo disse...

Outra ideia é fazer daquilo outro centro de congressos, não vieram outro dia dizer que faltavam centros de congressos? Então, aí têm uma coisa que se adapta com facilidade ao pedido. Fica a fazer par com o CCB. Traduzido: dêem esse mono à AIP ou à AEP ou à CIP ou à Intersindical ou à UGT ou ao ... BES.

Luís Raposo disse...

Agradeço o comentário do senhor Henrique Pereira. Não tenho de modo algum a pretensão de ter sempre razão e raramente me enganar... O Museu de Marinha é um ex-libris de Portugal e tudo o que se possa fazer em seu benefício será bem feito. Todavia, o "Museu da Viagem" que defendemos não se confunde de modo algum com o Museu de Marinha. A "viagem" deve ser aqui entendida em sentido muito amplo, quase metafórico. Trata-se de dar conta da relação dos portugueses com os "outros" e não de contar com foramos meios técnicos de navegação usados para atravessar mares e oceanos. Trata-se de desenvolver mensagens essencialmete histórico-antropológicas que nada justificaria,nem se comrpeenderia numa democracia civilista serem colocadas sob tutela militar. Mas é como digo: posso estar enganado e "é a falar que gente se entende".
Luís Raposo

Anónimo disse...

Concordo em quase tudo com o sr. Luis Raposo, só não acho em que em circunstância alguma se estrague a jóia pequena e bonita do Museu actual dos Coches. Façam do mono o tal Museu das viajens, ou então dêem-no à EDP, já que lhes dão tudo às claras, mal por mal assim não se estragam dois terrenos, eles que usem esta muscambilhice parola para o seu pretenso centro cultural até faz pandan com o outro elefante branco o ccb.

Mas votava que o deitassem abaixo por muito que isso custe, não me importava de dar dinheiro para um fundo que tivesse esse objectivo e o de responsabilizar todos os responsáveis por esta bosta que me causa vómitos de cada vez que ali passo.

Philippe de Suza disse...

Deviam era transformar aquilo num parque de estacionamento, o lisboeta não tem onde estacionar.